terça-feira, 28 de junho de 2011

Revista Superinteressante 024

Sem régua nem compasso

Os problemas que levaram à formulação do pi.

por Luiz Barco


Aos antigos gregos se atribuem três célebres problemas matemáticos: a trissecção do ângulo (divisão do ângulo em três ângulos da mesma medida), a duplicação do cubo e a quadratura do círculo. Durante muito tempo, eles foram responsáveis por uma mania da qual não escaparam alguns homens de ciência, prontamente acompanhados por uma multidão de insensatos e sonhadores: todos querendo achar a solução com régua e compasso. Essa busca teve sentido até que se estabeleceu uma relação que mostrava a correspondência entre as resoluções de problemas geométricos com esses instrumentos. Assim, as resoluções geométricas, baseadas no espaço físico, foram substituídas pelas soluções algébricas, resumidas a fórmulas e números, o que permite chegar a resultados impossíveis de visualização física.
Dessa maneira, os três problemas, embora de natureza ligeiramente diversa, tiveram suas chances de solução geométricas definitivamente sepultadas. O novo sistema de resolução foi reforçado graças ao trabalho de dois matemáticos: o jovem e brilhante francês Évariste Galois (1811-1832) e o alemão Ferdinand von Lindemann (1852-1939). O primeiro escreveu um trabalho revelou ser impossível executar a trissecção do ângulo e a duplicação do cubo com régua e compasso. Já o segundo demonstrou, em 1882, que o número π (pi) é irracional transcendente, descartando também a idéia da quadratura do círculo com tais instrumentos. Isso, porém, não diminuiu o ardor dos quadradores do círculo, que até hoje oferecem bizarras tentativas de soluções sempre rejeitadas por publicações matemáticas.
Assim, vi com surpresa a notícia, respaldada por uma publicação séria, sobre o trabalho do renomado matemático húngaro Miklós Laczkovich da Universidade Eotvos Loránd, de Budapeste, em que diz ser possível a quadratura do círculo.


Lackovich baseia-se na idéia de que círculo (o interior mais a borda) pode ser cortado num número finito de peças, as quais podem ser rearranjadas na forma de um quadrado com a mesma área. Assim, não apenas o círculo poderia ser enquadrado como também uma grande variedade de figuras. Por que uma idéia tão simples levou tanto tempo para ser usada, causando tanto impacto? Ocorre que as peças são teóricas e suas formulações exigem alta matemática de domínio sofisticado e restrito. A primeira versão dessa idéia foi apresentada em 1925 pelo matemático polonês Alfred Tarski (1902-1983). Um ano antes, ele e seu compatriota Stefan Banach (189-1945) provaram que existe uma forma de dividir uma esfera grande, como um planeta, em partes separadas, sem pontos em comum, a seguir, sem comprimir ou distorcer, montá-la em outra esfera do tamanho de uma bola de gude. Esse resultado, que beira o inacreditável tanto para leigos quanto para matemáticos, repousa na natureza das peças. 


Elas não são pedaços sólidos com fronteiras precisas e sim partes difusas e entrelaçadas, cujo volume individual é impossível medir. Somente quando as peças são rearranjadas é que o sólido resultante tem volume mensurável. Tal mágica não é aplicável a figuras planas e aí qualquer reorganização dessas figuras terá sempre a mesma área, já que contidas no mesmo plano. Uma das razões dessa diferença é que os objetos tridimensionais (um cubo, uma esfera) possuem muitos eixos possíveis de rotação. Faltava provar que figuras planas de mesma área podiam ser rearrumadas umas nas outras. Esse é basicamente o resultado do trabalho de Laczkovich, que não se restringe a círculos e quadrados, mas a qualquer figura que tenha fronteiras limitadas. E o mais surpreendente: as peças não precisam girar. Basta movimentá-las vertical e horizontalmente. Porém, se você está entusiasmado com o paradoxo de Banach-Tarski e pensa usá-lo para arrumar a mala na próxima viagem, ou então pegar uma tesoura para cortar as peças de uma figura usando o resultado de Laczkovich, desista. São peças teóricas e como curiosidade saiba que Laczkovich estimou em (o número 1 acompanhando de 50 zeros) o número de pedaços de círculos a ser enquadrado.




Luiz Barco é professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Compartilhar: Cadeia de erros Como e por que o Legacy da Embraer bateu no Boeing da Gol e matou 154 pessoas por Ivan Sant´anna

Um avião a jato não é uma mercadoria qualquer. Seu preço equivale ao capital de uma empresa de médio a grande porte. Um Legacy fabricado pela Embraer sai por 25 milhões de dólares. A entrega de uma dessas joias ao comprador é uma combinação de extensa burocracia com minuciosa verificação de especificações técnicas, acompanhadas de chique e austero cerimonial de celebração. Ninguém vende (ou compra) uma “empresa” de dezenas de milhões sem ao menos brindá-la com uma taça de champanhe.

O Embraer Legacy 600 foi apresentado ao público em junho de 2001. Baseado no Embraer 135, exibia vários aprimoramentos, inclusive tanques extras de combustível e winglets — uma graciosa dobra para cima, em forma de lâmina, com um ângulo de aproximadamente 80 graus — na ponta de cada asa. Seu sistema aviônico (o conjunto de instrumentos eletrônicos de comunicação, navegação, monitoramento do voo e indicadores meteorológicos) incluía um sofisticado TCAS.

Sistema de alerta e prevenção de colisões, o Traffic Collision Avoidance System, TCAS, passa à tripulação avisos sobre um possível tráfego aéreo em sentido contrário, aproximadamente quarenta segundos antes que o choque possa acontecer. Além de alarmes visuais e sonoros, o TCAS indica aos pilotos as manobras necessárias para evitar a colisão. Em resumo, o TCAS permite que aeronaves voando uma em direção à outra “conversem” entre si, como que dizendo: “Você sobe e eu desço.”

Para que o TCAS funcione, é preciso que ambos os aviões sejam equipados com o aparelho e que, obviamente, estejam ligados. É preciso também que os transponders (o sistema que emite sinais para os controladores em terra, indicando dados do voo e identificação da aeronave) tenham sido ativados. Sem transponder, um avião perde seu tcase se torna uma ameaça pairando no ar. Não foi à toa que uma das primeiras providências dos pilotos camicases do 11 de Setembro foi desligar os transponders dos quatro Boeings que sequestraram.

Após as negociações de praxe, a empresa de táxi-aéreo ExcelAire decidiu comprar, da Embraer, jatos EMB-135BJ Legacy para incorporá-los a sua frota. A entrega da primeira unidade foi combinada para a última semana de setembro de 2006. Para trasladar o avião de São José dos Campos para Fort Lauderdale, na Flórida, com escala em Manaus, o setor operacional da ExcelAire escolheu os pilotos Joseph (Joe) Lepore, de 42 anos, e Jan Paul Paladino, de 34.

Eles chegaram ao Brasil na segunda-feira, 25 de setembro de 2006, e tinham previsão de volta, pilotando o Legacy novinho em folha, no sábado da mesma semana. Lepore e Paladino tinham quatro dias de treinamento pela frente, de modo que pudessem fazer, com segurança, a longa jornada de retorno para casa.

O Legacy 600 vendido pela Embraer à ExcelAire recebeu o prefixo americano N600XL, já que a bandeira do jatinho seria a dos Estados Unidos. Na linguagem aeronáutica, usada por pilotos e controladores no mundo inteiro, N600XL é November Six Hundred X-Ray Lima.

Nos dias 26, 27 e 28 de setembro, além de planejarem o voo de traslado, estudando cartas aeronáuticas que haviam trazido para o Brasil, Joe Lepore e Jan Paladino, acompanhados de instrutores da Embraer, pilotaram o X-Ray Lima três vezes no espaço aéreo próximo a São José. Nessas ocasiões, se alternaram na poltrona da esquerda do cockpit, a de comandante, posto que, por sinal, Paladino, tal como seu colega, ocuparia nas operações rotineiras da ExcelAire.

Durante os testes, Lepore, pouco ambientadocom o Legacy, preferiu não fazer a manobra de estol (perda de sustentação), na qual o avião, literalmente, despenca por alguns segundos. Deixou a tarefa para Paladino, que tinha muito mais experiência em jatos da Embraer.

Havia um obstáculo a ser vencido: embora, naquela mesma semana, Lepore e Paladino tivessem voado juntos no Legacy, isso acontecera com o acompanhamento de instrutores. São José–Manaus–Fort Lauderdale seria a estreia da dupla voando por conta própria.

Nas instalações da Embraer, engenheiros da fábrica treinaram os americanos no uso do software do Legacy, programa esse que foi instalado em um laptop a ser usado na viagem. O software incluía dados sobre a rota, inclusive particularidades do aeroporto de Manaus, primeiro ponto de escala do percurso, onde os pilotos e passageiros do X-Ray Lima pernoitariam e onde haveria a liberação alfandegária do jato.

Já na quarta-feira, dia 27 de setembro, a ExcelAire, após ver cumpridas algumas exigências que fizera de alteração no radar meteorológico, reparos na válvula de descongelamento e retoques na pintura do November Six Hundred X-Ray Lima, considerou o jato em condições de recebimento. O voo de volta para os Estados Unidos foi antecipado de sábado, dia 30, para sexta-feira. A decolagem ocorreria logo em seguida à cerimônia de entrega.

No dia da partida, Lepore e Paladino se juntaram aos seus companheiros de voo: os executivos da ExcelAire Ralph Anthony Michielli e David Rimmer; Henry Arthur Yandre, representante da Embraer na Flórida; Daniel Bachmann, funcionário brasileiro da Embraer; e o jornalista Joseph (Joe) Sharkey.

Bachmann iria só até Manaus, onde se encarregaria do desembaraço aduaneiro do X-Ray Lima. Já Joe Sharkey, que morava em Nova Jersey, era o passageiro mais ilustre – ele escrevia, para jornais e revistas americanos, artigos sobre aviação executiva e empresas de táxi-aéreo, sendo inclusive colaborador do New York Times, com uma coluna semanal – “On the road” –no caderno de viagens. David Rimmer, da ExcelAire, lhe oferecera uma carona no voo inaugural do Legacy, aceita prazerosamente por Sharkey.

Nessa viagem ao Brasil, o jornalista fazia uma matéria para a revista Business Jet Traveler. Um comentário favorável de Sharkey sobre o Legacy ou sobre a ExcelAire seria uma ótima propaganda gratuita para as duas empresas.

De um detalhe Michielli e Rimmer, os sócios da ExcelAire, faziam questão: o horário de decolagem não poderia ultrapassar as 14 horas. A última coisa que eles queriam era sobrevoar a região amazônica durante a noite.

Às 13h15, os cinco passageiros se dirigiram para a aeronave, que fora rebocada para o pátio de estacionamento do aeroporto e abastecida. O comandante Lepore já estava a bordo, cuidando da checagem rotineira pré-voo. Enquanto isso, o copiloto Jan Paladino permanecia na sala de entrega, com um engenheiro da fábrica, familiarizando-se com os cálculos de peso e balanceamento do Legacy, reunidos no software carregado no laptop de Paladino. O plano de voo do N600XL já fora providenciado pela Embraer. Esta o terceirizara para a Universal Weather & Aviation Inc., de Houston, no Texas, especializada em serviços de apoio à aviação.

Além dos diferentes rumos da primeira perna do voo, São José–Manaus, constavam do plano as altitudes de cruzeiro correspondentes: 37 mil pés (nível 370) na aerovia UW2, de mão única, entre São José dos Campos e Brasília; 36 mil pés (nível 360), na aerovia UZ6(mão dupla), entre Brasília e um ponto virtual denominado Teres, a 480 quilômetros a noroeste da capital federal; e 38 mil pés (nível 380), também na mão dupla da UZ6, entre Teres e Manaus.

Tal como determinam as regras aeronáuticas brasileiras, a partir de Brasília, ao tomar o rumo norte, em aerovia de mão dupla, o November Six Hundred  X-Ray Lima se manteria sempre em níveis pares. Como do norte para o sul as aeronaves são obrigadas a voar em níveis ímpares, essa regrinha simples impede uma colisão. Níveis 360, 380, 400 etc. para o norte; 350, 370, 390… para o sul.

Na primeira chamada que o N600XL fez à torre do aeroporto, esta lhe passou a indicação da pista em uso e o instruiu sobre o taxiamento até a cabeceira. Os pilotos receberam também o código do transponder, 4574, através do qual seriam identificados nas telas de radar de solo, acompanhado da informação sobre a altitude do jato.

De posse do código, o Legacy, ainda parado no pátio, foi liberado pelo controlador de São José dos Campos a voar no nível 370 (37 mil pés) “até o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, em Manaus”. Na verdade, o Cindacta 1,em Brasília,havia autorizado o 370 (tal como dispunha o plano de voo para a primeira perna da viagem), mas não havia dito que tal altitude deveria ser mantida até Manaus.

Paladino não questionou a instrução, que, no entanto, não obedecia ao plano elaborado pela Universal para a viagem. Limitou-se a acusar seu recebimento:

– November Six Hundred X-Ray Lima, liberado para o Eduardo Gomes, nível de voo três sete zero.

Após ter falado com o Legacy, o controlador chamou Brasília. Usou linguagem coloquial e agiu como se o pedido de manutenção da mesma altitude durante toda a rota tivesse partido do N600XL.

– Oi, Brasília, o November Meia Zero Zero X-Ray Lima para Eduardo Gomes, São José–Eduardo Gomes, solicitando o nível três sete zero.

Brasília não contestou.

O nível 370 não só contrariava o plano de voo preestabelecido como também as normas de altitude nos sentidos sul–norte e norte–sul. Felizmente, o Legacy era equipado com o sistema anticolisão TCAS, que alertaria os pilotos na hipótese de tráfego em sentido contrário.

Enquanto taxiavam, o copiloto, respondendo a uma indagação do controlador, informou que havia “seis almas a bordo” (six souls on board). Mas logo corrigiu: “Sete almas”, ao se lembrar da presença do jornalista e carona Joe Sharkey. Um minuto depois, o N600XL decolou para Manaus, 2,7 mil quilômetros a noroeste.

Quando atingiu 8 mil pés, o Legacy foi autorizado a continuar a subida. Recebeu também instruções para contatar a frequência do Centro de Controle de Área de Brasília, onde um operador observava a movimentação do X-Ray Lima, representado pelo código 4574 em seu monitor de radar. Na tela escura, um círculo rodeava o bloco de dados do Legacy, em aviação conhecido como “alvo”, composto de algarismos e letras brancas. A existência do círculo era sinal de que a aeronave emitia sinais secundários de radar. Portanto, seu transponder funcionava perfeitamente.

Após passar pelo nível 200, e permanecer um pouco no nível 310, aguardando a resolução de conflito de tráfego com outra aeronave, o jato recebeu permissão para subir para 37 mil pés. No cockpit, Lepore e Paladino, sem familiaridade com as regras do tráfego aéreo brasileiro, entendiam, por causa da instrução inicial do controlador de São José dos Campos, que o nível 370 deveria ser observado até o destino.

Sem que Brasília percebesse o erro, o N600XL voava na contramão. Entretanto, isso não deveria se constituir em problema grave, uma vez que o transponder do X-Ray Lima logo iria enviar um sinal para as telas de radar do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo, o Cindacta 1, em Brasília, mostrando o alvo em nível incorreto. E, mesmo que nenhum desses sistemas e regulamentos redundantes funcionasse, o TCAS do Legacy cuidaria de indicar, aos pilotos, as manobras evasivas necessárias para desviar o jatinho de um possível tráfego em sentido contrário.

Desde o momento em que nivelaram o X-Ray Lima em 37 mil pés, Joe Lepore e Jan Paladino passaram a trabalhar em um laptop. Os pilotos tinham dúvidas sobre a performance do Legacy durante o pouso e a decolagem (esta, no dia seguinte) no Eduardo Gomes. Parte da pista do aeroporto estava interditada por causa de obras.

Em Brasília, o controlador do setor 07 não notou que o Legacy, sob sua responsabilidade, voava na contramão. No entanto, isso era claramente indicado na tela de seu console. O bloco de dados do X-Ray Lima mostrava: 370 (nível efetivo) = 360 (nível programado).

Exatamente às 19h02 Zulu (Z ou Zulu = hora de Greenwich, equivalente a 15h02 em Brasília e 14h02 em Manaus), o círculo ao redor do bloco de dados do Legacy desapareceu das telas do Cindacta 1, significando que o transponder fora desligado.

Sem se dar conta da perda do sinal secundário do avião, Brasília não chamou o Legacy pelo rádio. Enquanto isso, Lepore e Paladino continuavam “brigando” com o laptop, que se alternava no colo de um e de outro. Concentrados no problema da pista de Manaus, os dois não viram uma pequena mensagem branca em cada uma das telas principais do painel: TCAS OFF (TCAS desligado) era o que o aviso assinalava.

Sempre seguindo o eixo da aerovia UZ6, o jato atingiu a posição Teres. Lá, segundo o plano original de voo, ele deveria passar do nível 360 — no qual em momento algum voara — para o 380 (38 mil pés). Bloquearia então a posição virtual Nabol e seguiria até Manaus, fim da primeira etapa do voo de traslado.

Obedecendo à instrução inicial de São José dos Campos, de onde haviam decolado duas horas antes, Lepore e Paladino se mantinham em nível ímpar, o FL370, exclusivo do sentido norte–sul. Uma cópia do plano de voo feito pela Universal Weather, por encomenda da Embraer e aprovado pelo centro de Brasília antes da decolagem, permanecia disponível em um escaninho entre os dois pilotos. Também à disposição deles estavam as cartas aeronáuticas, nas quais eram especificados os níveis corretos de voo nos dois sentidos verticais da via de mão dupla.

O Legacy persistia na contramão.

Em Nabol, terminava a área de vigilância do Cindacta 1 (Brasília) e tinha início a do Cindacta 4 (Manaus), sendo esta segunda a responsável pelo tráfego aéreo na região amazônica. Além de estar no nível errado, o Legacy entrara numa zona de transição, crítica para as transmissões de rádio, que muitos pilotos chamam de buraco negro. Nela, às vezes os aviões não conseguem falar com os controladores, e vice-versa. Era justamente o que acontecia com o copiloto Paladino, que tentava chamar os centros de terra:

–November Six Hundred X-Ray Lima, November Six Hundred X-Ray Lima – Paladino repetia ao microfone.

Nada. Nenhuma resposta.

Havia 54 minutos, o transponder e, por conseguinte, o dispositivo anticolisão TCAS permaneciam desligados, sem que os controladores de tráfego aéreo e a dupla Lepore e Paladino percebessem. Então, às 19h56m54 Zulu, quando o Legacy cruzava a selva, acima do território do município mato-grossense de Peixoto de Azevedo, algo misterioso e apavorante aconteceu.

Ouviu-se na cabine de comando um som seco de impacto, captado pelos microfones CAM (Cockpit Area Microphones) e registrado numa das caixas-pretas, o CVR (Cockpit Voice Recorder), gravador de vozes da cabine de comando. O avião deu uma abrupta guinada para a esquerda.

Seguiram-se dois gemidos do comandante Lepore, “Uh, oh”, a desconexão imediata do piloto automático e três avisos estridentes (chimes) de alarme.

– What the hell was that? (Que diabos foi isso?) – Lepore perguntou.

– Nós perdemos um dos winglets (dobra para cima da ponta da asa) – respondeu o copiloto, assustado, mas não em pânico.

– Did we? (Perdemos?) Where the fuck did he come from? (De que porra de lugar ele veio?) – Joe Lepore percebeu que haviam colidido com alguma coisa. – O.k., vamos descer, declarando uma emergência.

Foi a vez de Paladino gemer:

– Uh.

Lepore falou ao microfone:

– Brasília, Rádio Brasília, Brasília, November Six Hundred X-Ray Lima.

Paladino avisou o comandante que este deveria usar a frequência de emergência.

– Vinte e um cinco (referia-se a 121,5 mega-hertz).

Lepore, que não se esquecera disso, confirmou:

– Vinte e um cinco.

– Precisamos manter a velocidade baixa – sugeriu o copiloto. E tentou minimizar o incidente:

– Nós não estamos com uma descompressão explosiva – Paladino fez valer sua maior experiência em jatinhos da Embraer.

– Fuck it – o CVR registrou o “comentário” do comandante. Mas logo sua voz ficou calma e clara quando ele voltou a chamar Brasília.

– Brasília, Brasília, November Six Zero Zero X-Ray Lima, emergência.

Sentado numa das poltronas da cabine de passageiros, o vice-presidente executivo da ExcelAire, David Rimmer, sentira o forte sacolejo, viu que a ponta da asa esquerda desaparecera e, por via das dúvidas, levantou-se e foi até o cockpit informar os pilotos.

A pergunta-palavrão veio agora de Paladino:

– Where the fuck did he come from?

As lembranças do colunista Joe Sharkey foram, dias depois, registradas em um artigo de jornal:

“Sem aviso, senti um terrível solavanco e ouvi uma batida forte, seguidos de um silêncio assustador, a não ser pelo zumbido dos motores. E então duas palavras das quais jamais me esquecerei: ‘Fomos atingidos’, disse Henry Yandle, um dos companheiros de viagem, de pé no corredor próximo à cabine de comando do jato Embraer Legacy 600.”

Sharkey levantou a cortina plástica da janela. Viu que o dia ainda estava claro, embora com o sol se avermelhando e já próximo à linha do horizonte. Viu também o verde-escuro da floresta, se estendendo até onde os olhos podiam distinguir. Na extremidade da asa, em lugar do winglet, havia um rasgão indecente e irregular, com fiapos de fibra de carbono tremulando ao vento.

Nenhum deles, nem passageiros nem aviadores, sabia que o pior acontecera lá atrás. O leme e o estabilizador esquerdos, no alto da cauda, também haviam sido danificados, comprometendo a aerodinâmicae a dirigibilidade do avião.

Para compensar a assimetria provocada pelos danos e avarias, os pilotos precisaram torcer o manche 45 graus para a direita. Só assim evitaram que o Legacy girasse para o outro lado, sobre o próprio eixo, movimento que poderia resultar num mergulho em parafuso. Com muito custo, conseguiram dominar o animal indócil e desconhecido no qual o X-Ray Lima se tornara.

O Legacy se encontrava a mais de mil quilômetros de seu destino, Manaus. Tudo fazia crer que dificilmente a alcançaria naquele estado crítico. A prioridade dos pilotos passou a ser a de achar um aeroporto que lhes permitisse um pouso de emergência.

– Que porra nós atingimos? – ainda perplexo com o incidente, Lepore perguntou a Paladino e a si próprio. Mas logo voltou a pensar nos centros de auxílio de terra. Apertou, no manche, o botão do microfone e transmitiu, às cegas, para qualquer um que pudesse ouvir:

– Brasília, Brasília, November Six Hundred X-Ray Lima. Temos um problema estrutural. Mayday, mayday– completou.

Se valendo das cartas aeronáuticas e do plano da Universal, descobriram a Base Aérea do Cachimbo. A distância de onde se encontravam até Cachimbo foi estimada em 180 quilômetros, pouco mais do que vinte minutos de voo, mesmo tendo de reduzir a velocidade do jato para não comprometer ainda mais sua estrutura.

Exatamente às 20h21m42 Zulu, após os 25 minutos mais excruciantes de suas vidas, Lepore e Paladino enxergaram ao longe, na diagonal, a pista de Cachimbo. Avaliaram seu comprimento, receberam autorização da torre e iniciaram os procedimentos de pouso, que incluíram uma curva bem ampla, e pouco inclinada, de aproximação, para não forçar a asa avariada. No cockpit, alguns alarmes soaram, lembrando-os das irregularidades aerodinâmicas do X-Ray Lima.

Mesmo com a dobra da ponta da asa esquerda arrancada, e sem parte da cauda (aleijão que os aviadores desconheciam), o Legacy conseguiu pousar, tocando o solo a 200 quilômetros por hora. O arredondamento (perda de sustentação que precede o toque) se deu com suavidade e segurança, apesar de os americanos terem optado por não usar os flaps, com receio de que estivessem com defeito. Os freios, entretanto, foram usados ao máximo.

Quando o avião já estava quase parando, Paladino virou-se para Lepore e limitou-se a dizer:

– We’re alive (Estamos vivos).

Assim que o Legacy parou completamente, bem antes do final da pista pavimentada de Cachimbo, uma viatura de apoio da base aérea veio e se posicionou à sua frente. Bastou aos pilotos Lepore e Paladino a seguirem taxiando até o pátio de estacionamento, onde os motores do jato foram desligados. Eram 20h33 Zulu, 15h33 no fuso horário do oeste do Pará, onde fica a base.

Quando desceram do avião, tripulantes e passageiros levaram um enorme susto ao ver que, além do winglet esquerdo decepado, um impacto na ponta da cauda danificara o conjunto estabilizador/profundor, que perdera algumas de suas superfícies móveis.

Minutos após o pouso do X-Ray Lima, Cachimbo recebeu um telefonema de Manaus. O comandante do Cindacta 4 queria falar com o piloto do Legacy. Lepore, que se encontrava num dos prédios da base, foi posto na linha. Um gravador registrou a conversa.

O oficial, após se identificar, explicou, em inglês, que estava coletando informações para descobrir o que havia ocorrido. Indagou sobre a localização do Legacy na hora do impacto.

– Mais ou menos a 100 milhas de Cachimbo — esclareceu Lepore.

– Em que nível você estava? – quis saber o comandante do Cindacta.

– Três sete zero – respondeu o comandante.

– Nivelado a três sete zero? – o oficial quis ter certeza.

– Nivelado a três sete zero – Joe Lepore confirmou.

– The TCAS System was turned on? (O TCAS estava ligado?) – o militar passou ao próximo item de seu interrogatório.

– Não – disse Lepore.

– Não? – Manaus quis ouvir de novo.

– No,it wasn’t (Não, não estava) – a resposta de Lepore foi clara.

– Sem TCAS – o oficial comandante conduzia com habilidade suas perguntas, de modo que tudo ficasse registrado.

– The TCAS was off. (O TCAS estava desligado.) – Lepore voltou a confirmar, mas logo em seguida mudou sua versão. – The TCAS was on. (O TCAS estava ligado.)

O comandante militar não pôs em xeque a contradição.

– O.k. – aceitou.

E prosseguiu perguntando:

– Mas não houve nenhum sinal (de alerta de colisão), certo?

– Não, nós não recebemos nenhuma advertência [do TCAS] – Lepore concordou.

– O.k.! TCAS for sure was turned on, o.k.? (O.k.! Com certeza o TCAS estava ligado, o.k.?) – o oficial em comando do Cindacta 4 era insistente.

– O.k. – confirmou o comandante.

Manaus quis saber se o N600XL já passara da área de atuação do Centro de Controle de Área Brasília para a do centro de controle amazônico na hora do incidente e quais as frequências de rádio usadas pelos pilotos. Lepore deu as informações e relatou suas dificuldades de comunicação com os controles de terra, que não haviam respondido a suas chamadas.

Após a ligação telefônica entre Cachimbo e Manaus, Lepore, Paladino e seus cinco passageiros foram levados ao alojamento de oficiais da base, onde lhes serviram cerveja gelada.

Por volta das sete e meia da noite, o oficial em comando da base aérea de Cachimbo informou ao grupo que um Boeing 737 comercial, com mais de 150 pessoas a bordo, desaparecera no mesmo local, na mesma hora e no mesmo nível de voo em que eles haviam sido atingidos.

O Gol 1907 decolou às 13h35 (hora de Manaus), tendo a bordo 148 passageiros(dos quais 144 brasileiros, um francês, um alemão, um português e um americano) e seis tripulantes. O destino final do voo era o Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro, com escala em Brasília, onde a tripulação seria trocada.

Durante a subida até 20 mil pés, o comandante Décio Chaves Júnior e o copiloto Thiago Jordão observaram, em suas atitudes e conversas, as condições de sterile cockpit, conforme é praxe nas companhias aéreas mais exigentes. Isso significa obedecer a regras rígidas de se concentrar nos procedimentos de pilotagem, sem contar piadas, sem falar de futebol ou mal do patrão. O mesmo acontece nas descidas para aproximação e pouso, abaixo do mesmo nível 200.

O avião de prefixo Golf Tango Delta ultrapassou os 20 mil e continuou subindo. Quando chegou ao nível 370, o Boeing foi estabilizado, iniciando o voo de cruzeiro.

Como estavam bem acima da área fixada para o padrão severo do sterile cockpit, Chaves e Jordão podiam relaxar. Se alguma aeronave viesse na direção do Boeing, o TCAS acusaria sua presença na tela e passaria aos pilotos as instruções necessárias para uma manobra evasiva.

Sem nada para se preocupar, comandante e copiloto examinavam fotos no visor de uma câmera digital. Elas haviam sido tiradas nos Estados Unidos.

– A foto do carro você não me mostrou — disse um deles. Sua voz ficou registrada na caixa-preta.

– Essa eu já te mostro – respondeu o companheiro.

– Essa foto aí é da bicicleta?

– Isso.

Nesse instante, às 19h56m54 Zulu, ouviu-se na cabine de comando uma pancada e sentiu-se um tranco forte. O nariz do Boeing guinou violentamente para a esquerda e uma sequência infernal de alarmes começou a soar.

Quando o Gol 1907 sofreu o impacto com algo que seus pilotos não viram, e muito menos puderam identificar, a aeronave voava a 460 nós (850 quilômetros por hora). Naquele instante, o Golf Tango Delta saía do espaço aéreo do centro amazônico e entrava no do Setor 6 do Cindacta 1, de Brasília.

Enquanto uma profusão de alarmes disparava no cockpit, o Boeing perdeu sustentação. Sem um terço da asa esquerda, a aerodinâmica do jato ficou totalmente comprometida. Ferido de morte, o Tango Delta inclinou-se para o lado do toco de asa e começou a afundar, girando em parafuso. Um forte ângulo de descida logo se transformou em mergulho vertical.

– O que aconteceu? – o CVR registrou a pergunta agoniada do comandante.

– Ai, meu Deus do céu – limitou-se a gemer o copiloto.

– Calma, calma – Décio Chaves fez das tripas coração para manter o autocontrole, enquanto o som dos alarmes aumentava de intensidade.

– Aiii! – um último grito de desespero foi seguido, na captação dos microfones da caixa-preta, pelo ruído forte de deslocamento de ar.

Jamais se saberá se algum passageiro ou comissário chegou a perceber o que havia acontecido. O provável é que os giros do parafuso, aliados ao mergulho do Boeing, tenham desnorteado completamente as mais de 150 pessoas a bordo.

No momento da colisão a 37 mil pés, ninguém morreu. Pois não houve um movimento inercial em direção às poltronas à frente de cada um. A força do impacto se concentrou na parte inferior da asa atingida.

Enquanto o Tango Delta despencava, na cabine de comando Décio Chaves e Thiago Jordão fizeram de tudo para amenizar a queda. Os manetes foram reduzidos para idle [ponto morto], os trens de pouso, baixados, assim como baixados os flaps. Os spoilers se abriram (apurou-se isso mais tarde, pela leitura do gravador dos parâmetros de voo) nas partes que restavam de asas. Nada disso impediu, nem teria como impedir, que o avião amputado continuasse girando e caindo.

Finalmente, a estrutura do 737 não suportou as forças que a trituravam. O Gol Uno Nove Zero Sete se desmanchou no ar. Seus milhares de componentes, seus 148 passageiros e seis tripulantes continuaram desabando até se espatifarem nas árvores da floresta tropical no município de Peixoto de Azevedo, no Mato Grosso. Em poucos segundos, as copas das árvores, tais como cortinas ao final de uma tragédia, se fecharam sobre os destroços e as vítimas, encobrindo-os pudicamente.

A subida do November Six Hundred X-Ray Lima até 37 mil pés foi acompanhada por um operador de radar do Cindacta 1. Embora tivesse trocado diversas mensagens com o Legacy, em nenhum momento o profissional de terra informou sobre a alteração de nível no bloqueio de Brasília, tal como constava do plano de voo, cujos dados apareciam na tela do controlador.

Quando, finalmente, o Legacy atingiu a altitude para a qual fora autorizado por João Batista da Silva, o suboficial de serviço na torre de São José dos Campos, o comandante Joe Lepore selecionou o dispositivo altitude hold, que mantém a altitude no piloto automático da aeronave. Isso aconteceu aos 26 minutos de voo e foi passado para Brasília pelo copiloto Jan Paladino.

– November Six Hundred X-Ray Lima, level… Flight level 370 – informou Paladino, embaralhando-se um pouco com a fraseologia.

– Roger, squawk ident, radar surveillance, radar contact – respondeu o controlador de Brasília, querendo dizer com isso que o N600XL deveria se identificar, apertando um botão associado ao transponder. Esse botão faria surgir, para a vigilância de radar do Cindacta 1, o símbolo eletrônico do Legacy.

Paladino não entendeu o inglês do operador.

– I’ve no idea what the hell he said (Não faço a menor ideia de que diabo ele disse) – o copiloto comentou com Lepore.

E a identificação não foi passada para Brasília, o que só iria acontecer um pouco mais tarde.

Enquanto o Legacy e o Cindacta 1 tentavam se entender, a 2,1 mil quilômetros a noroeste o Boeing 737-800 da Gol, prefixo PR-GTD, decolava do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, em Manaus, com destino a Brasília. O nível de voo solicitado por seu comandante, Chaves Júnior, fora o 370, compatível com as normas da aerovia UZ6.

Quando interceptou o centro da nova aerovia, a UZ6, o Legacy fez uma suave curva de 30 graus à esquerda e tomou o rumo 336 graus, manobra executada pelo piloto automático. A mudança ficou gravada no FDR (Flight Data Recorder, que registra os parâmetros de voo), uma das duas caixas-pretas do avião. Mas a outra caixa-preta, o CVR (gravador de vozes do cockpit), não captou nenhuma troca de observações entre Lepore e Paladino a respeito da mudança de proa.

Ao longo de sua conversa, Lepore e Paladino tampouco nada disseram sobre o combustível consumido até aquele momento, nem conversaram sobre as estimativas de tempo de voo restante, tudo isso bê-á-bá da rotina de qualquer aviador. Os dois continuaram presumindo que o nível 370 valia até Manaus, sem conferir isso com a “carta de rota” – que mostrava claramente o critério de níveis par e ímpar —, da qual havia um exemplar num escaninho do cockpit.

Permaneciam concentrados no estudo do software do laptop, calculando os dados da decolagem do dia seguinte em Manaus. Essa indiferença em relação ao que realmente importava no momento, não acompanhando o desenrolar da navegação, revelou deficiência de airmanship por parte deles.

Airmanship é o correspondente aéreo ao termo em inglês seamanship, usado há séculos pelos navegantes, nome que se dá à arte de se conduzir um navio de modo seguro e vigilante, obedecendo às leis marítimas e de acordo com as condições do mar e dos ventos. Airmanship e seamanship são uma mistura de ciência, disciplina, experiência e dom.

Se, nos ares, pouca ou nenhuma atenção se deu à proa e à altitude do Legacy, o mesmo se pode dizer de terra. O sargento Jomarcelo Fernandes dos Santos, responsável pelo voo do jato, não era o que se poderia chamar de profissional exemplar. Segundo a Aeronáutica, em seu relatório A-022/Cenipa/2008, ele sentia dificuldades quando o volume de tráfego aéreo aumentava. Ainda de acordo com o mesmo relatório, a fluência do sargento em inglês era “não satisfatória”.

Naquela tarde de sexta-feira, Jomarcelo se concentrava principalmente em uma aeronave da FAB, também sob sua responsabilidade, em missão de prospecção de imagens radar a nordeste de Brasília. Talvez por isso o sargento não tenha dado importância ao fato de que o Legacy se mantinha no nível 370. Como recebera o avião antes do local designado para isso, Jomarcelo pode ter se confundido e achado que já confirmara, com o piloto, a diferença de altitude das etapas correspondentes às aerovias UW2e UZ6.

Às 19h01 Zulu, o círculo ao redor da etiqueta do November Six Hundred X-Ray Lima subitamente desapareceu da tela do sargento. No item “altitude” do bloco de dados, o sinal “igual” foi substituído pela letra z, significando que, a partir daquele momento, a altitude exibida era apenas uma estimativa e não um dado preciso.

Jomarcelo não notou as alterações. Ou, se notou, nada fez para alertar os pilotos do Legacy. Simultaneamente, 65 quilômetros a noroeste, no painel do X-Ray Lima surgiu a mensagem TCAS OFF.

A ausência do círculo e o Z em lugar do “igual” na tela de Jomarcelo dos Santos, assim como os dizeres TCAS OFF à frente de Lepore e Paladino, eram sinais inequívocos de que o transponder do Legacy fora desligado. O Cindacta agora recebia sinais primários de radar, sem a menor precisão no quesito “altitude”. Como, tanto em terra como no ar, ninguém deu mostras de perceber a anormalidade, Brasília não chamou o Legacy e o Legacynão chamou Brasília.

Quando terminou o turno do sargento Jomarcelo, assumiu em seu lugar o controlador Lucivando Tibúrcio de Alencar, também sargento. Ao passar o serviço, Jomarcelo nada disse a Lucivando sobre o fato de que um dos voos sob sua responsabilidade, o do November Six Hundred X-Ray Lima, não emitia sinais secundários de radar, ou seja, sinais de transponder.

Já em seu nível de cruzeiro, 37 mil pés, o Boeing 737-800 da Gol sobrevoava a região de floresta cerrada no sul do estado do Amazonas, entre os rios Abacaxis e Maués-Açu, afluentes do Madeira.

Quando o transponder do Legacy foi desligado, seu sinal secundário de radar, com informações precisas sobre os dados do voo, inclusive e principalmente sua altitude exata, deixou de ser enviado não só para os centros de controle de terra como também para as aeronaves que voavam nas proximidades. O Legacy tornou-se um espectro difuso na vastidão do espaço aéreo.

 O copiloto Paladino permanecia trabalhando no laptop quando o transponder saiu do ar, e Lepore pilotava o avião nesse momento. Onze minutos já haviam se passado desde que o Legacy se comunicara pela última vez com os controles de terra.

Paladino continuava preocupado com a decolagem em Manaus.

– Estou estimando um vento de frente de 5 nós – explicou ele ao comandante, sempre de olho na tela do laptop em seu colo.

– Acho que vai dar para usar tanque cheio – respondeu Lepore.

Às 19h01 Zulu, Joe Lepore, inadvertidamente, ao manusear sua RMU (Radio Management Unit), dispositivo de operações de rádio e comunicações, apertara o quarto botão da esquerda (de cima para baixo), por duas vezes num intervalo de vinte segundos, rompendo as defesas do aparelho contra um comando acidental. Com o duplo toque, o transponder saíra da posição correta, TA/RA (Traffic Advisory/ Resolution Advisory – modo de informação de tráfego/resolução de conflito de tráfego), para o módulo stand-by (espera).

Imediatamente, o aparelho deixou de transmitir sinais de radar para o exterior, refletindo apenas os que recebia. Nem Lepore nem Paladino notaram as mensagens TCAS OFF e stand-by, inertes, em branco pálido, sem piscar, em suas respectivas telas. Para piorar, nenhum alarme soou no cockpit, alertando os pilotos americanos de que o avião agora voava às cegas, sem detectar eventuais tráficos em rota de colisão.

À primeira vista, poderia se afirmar que dois aviões voando em sentido contrário, pela mesma aerovia, e na mesma altitude, têm tudo para se chocar de frente. Acontece que a UZ6, percorrida pelo Gol 1907 e pelo N600XL, tem 80 quilômetros de largura. O normal seria os dois jatos se cruzarem sem que os pilotos do Legacy e do Boeing, mesmo que estivessem olhando para fora, vissem a passagem um do outro.

Isso se não fosse a incrível precisão dos instrumentos modernos de navegação aérea. A altitude de voo tanto do Boeing como do Legacy era de exatos 37 mil pés. Os dois percorriam o eixo mais do que acurado da aerovia, sem nenhum desvio horizontal.

Se, por inspiração do demônio, os comandantes Chaves Júnior e Lepore e seus copilotos tivessem planejado e calibrado em seus instrumentos de bordo para aquele roçar de asas, não teriam conseguido. Segundo descrição da revista Vanity Fair, foi como se dois índios, um em cada extremidade de uma aldeia, e sem saber o que o outro estava fazendo, lançassem flechas para cima e elas se tocassem levemente no ar.

Para sorte dos sete ocupantes do Legacy, um ligeiro desvio, quem sabe provocado por uma quase imperceptível turbulência que logo o piloto automático iria corrigir, fez com que os dois aviões não se chocassem exatamente de frente, nariz contra nariz. O winglet da ponta da asa esquerda do Legacy triscou na asa do Boeing, decepando-a em parte. O enorme jato comercial caiu e o jatinho executivo, mesmo ferido, seguiu em frente.

De nada serve a precisão dos instrumentos de bordo se eles não estão ligados. E isso foi o que aconteceu com o transponder do Legacy, posto inadvertidamente em stand-by por um dos pilotos, logo após o jato cruzar a vertical de Brasília. Sem transponder, o X-Ray Lima ficou sem TCAS. Este, por estar desativado, não pôde “conversar” com o TCAS do Gol Uno Nove Zero Sete.

Não fosse o desmazelo a bordo do Legacy, os dois TCAS, após trocar informações, decidiriam que uma das aeronaves iria subir e a outra, descer. Um alarme soaria em cada cockpit, seguido do surgimento de uma área verde no indicador de velocidade vertical (climb) de cada um dos dois jatos. Se a área verde ficasse na parte de cima do visor do instrumento, o avião deveria subir. Se na parte de baixo, descer. E sempre divergente do TCAS da outra aeronave. “Eu desço e você sobe”, ou vice-versa, é a regra.

A inoperância do transponder do N600XL também impediu que os radares dos centros amazônico e de Brasília – o Legacy e o Boeing trocavam de área naquele momento – percebessem que os dois voavam um de encontro ao outro.

As aeronaves colidiram na velocidade somada de 1,6 mil quilômetros por hora. Cada uma tinha a outra ligeiramente à sua esquerda. O plano da asa do Boeing estava pouco menos de 1 metro acima do da asa do Legacy. Nenhum dos quatro pilotos percebeu a aproximação do outro avião. Não houve tentativas de manobras de escape.

Além do winglet esquerdo, as pontas do mesmo lado do estabilizador e do profundor do Legacy também atingiram o Golf Tango Delta – o winglet no meio da asa do Boeing e o conjunto profundor/estabilizador na ponta do winglet esquerdo do Gol 1907. Foi, em suma, não mais do que um esbarrão, no qual o avião grande levou a pior, primeiro despencando em parafuso, depois se desintegrando no ar, caindo em mil pedaços na floresta lá embaixo.

A queda do Gol Uno Nove Zero Sete durou 63 segundos, durante os quais diversos alarmes soaram no cockpit e uma voz robótica, metálica, desprovida de emoção, avisou aos pilotos: “Bank angle” (algo como “cuidado com a inclinação”).

Em Brasília e Manaus, os controladores dos Cindacta 1 e 4, apreensivos, viram o bloco de dados emitido pelo transponder do Gol 1907 sumir de suas telas. Pouco depois, surgiram, bem nítidos, os sinais do transponder do November Six Hundred X-Ray Lima.

No Cindacta 4, em Manaus, o controlador Francisco Roberto Agostinho Freire aguardava a chamada do Legacy, que agora voava no espaço aéreo sob a jurisdição do centro amazônico. Era preciso coordenar o voo do jatinho em seu percurso final até o Aeroporto Eduardo Gomes.

Freire supunha, e não tinha razões para pensar diferente, que o X-Ray Limavoava no nível 360 (36 mil pés). Essa altitude não só era prevista no plano de voo do Legacy, como fora confirmada pelo Cindacta 1.

Embora o Gol 1907, voando em sentido contrário ao do Legacy, estivesse saindo da área de Manaus para a de Brasília, Freire continuava visualizando, com nitidez, em sua tela, o bloco de dados emitido pelo transponder do Boeing.

Às 19h57m10 Zulu (14h57m10, hora de Manaus), Freire podia ver que o 1907 se deslocava para o sul em uma velocidade horizontal regular de voo de cruzeiro de um Boeing 737-800: 460 nós (850 quilômetros por hora). Mas dez segundos depois, às 19h57m20, a velocidade caiu vertiginosamente para 290 nós. Tal redução, num espaço de tempo tão curto, era tecnicamente inviável, mesmo que os pilotos da aeronave tivessem desligado abruptamente os motores.

A única explicação possível era a de que o Gol, após ter colidido contra algo no céu, ou perdido uma asa, ou qualquer outra parte vital de sua estrutura, em vez de prosseguir em seu voo retilíneo, estivesse se projetando em direção ao solo. Isso ficou bem claro quando, passado mais meio minuto, o transponder do Boeing informou que a velocidade (horizontal, frise-se) caíra para apenas 20 nós (37 quilômetros por hora).

Os dados exibidos na tela do Cindacta 4 mostravam nitidamente que o Gol Uno Nove Zero Sete estava caindo. Mas, com a tecnicidade burra e fria das máquinas, o transponder simplesmente expunha os 20 nós. Era o que a tela de radar mostrava para Freire.

Quando o Golf Tango Delta, mergulhando em direção à floresta, rompeu a barreira do som, sua estrutura se desintegrou. Segundos depois, para profunda inquietude de Freire, o Gol 1907 sumiu da tela à sua frente. A angústia do controlador de Manaus era compartilhada por seus colegas de Brasília.

– Não há nenhum Gol! Não há nenhum Gol! O Gol desapareceu! – O desespero dos controladores do Cindacta 1 ficou registrado nas fitas de gravação do centro.

Assim que, no cockpit do Legacy, os pilotos sentiram o solavanco, e perceberam que o winglet da asa esquerda fora decepado, iniciou-se uma inversão na hierarquia de comando.

– What the hell was that? (Que diabos foi isso?) – Lepore pareceu perguntar mais a si mesmo do que a Paladino. Este imediatamente procurou acalmar o comandante:

– All right, just fly the airplane, dude (Tudo bem, simplesmente voe o avião, cara).

E repetiu:

– Just fly the airplane.

– Felizmente não houve uma descompressão explosiva – continuou Paladino, ao perceber que o sistema de pressurização do jato continuava funcionando normalmente. Lembrou isso ao comandante.

Pouco depois, sentindo que Lepore estava visivelmente abalado, e não raciocinava com a lucidez que a situação exigia, Paladino tentou, com tato, assumir a responsabilidade de conduzir o avião.

– Do you wanna fly, dude? Do you want me to fly it? (Você quer pilotar, cara? Ou quer que eu pilote?)

Lepore não disse que sim nem que não. Mudou de assunto.

 – What? We got fucking hit? (O quê? Nós fomos atingidos?)– perguntou o comandante.

– I don’t know, dude, just let me… let me fly it (Eu não sei, cara, deixe-me… deixe-me pilotar) – Paladino agora tinha certeza de que o comando teria de ser dele.

Lepore mostrou-se aliviado.

– You got it? (Você o tem [nas mãos]?)

– Yeah. I can fly. Just keep an eye out for traffic (Sim. Eu posso voá-lo. Fique de olho no tráfego).

O November Six Hundred X-Ray Lima tinha um novo comandante, de fato. Paladino não perdeu tempo e deu a primeira ordem:

– O.k., declare uma emergência.

– Em que frequência, vinte e um cinco? – Lepore se submeteu mansamente. Por vinte e um cinco, ele se referia à frequência de emergência, 121.5 mega-hertz.

– Sim, vinte e um cinco – confirmou Paladino. – Seja lá o que tenha acontecido, temos de descer – concluiu, sentindo no manche e nos pedais que o avião estava seriamente ferido e não respondia prontamente aos comandos.

Foi então que Paladino percebeu, na parte superior esquerda de uma tela do painel à sua frente, a mensagem em branco TCAS OFF, aviso esse que estava ali havia 57 minutos, sem que nenhum dos dois pilotos tivesse notado.

Paladino respirou tão profundamente que o som do ar sendo aspirado e exalado de seus pulmões ficou registrado no CVR.

– Dude, you have the TCAS on? (Cara, o TCAS estava ligado?) – ele perguntou a Lepore.

– Yes, the TCAS is off (Sim, estava desligado) – Lepore, ainda com a mente embotada, confirmou e desmentiu na mesma frase.

– Vamos corrigir isso agora – disse Paladino, ao mesmo tempo que religava o transponder (e, por conseguinte, o TCAS).

Nas telas de radar dos Cindactas 1 e 4 (Brasília e Manaus) voltaram a aparecer, como que por encanto, os dados emitidos pelo Legacy. Eram 20h01m57 Zulu, 16h01 em Brasília e 15h01 em Manaus e no norte do estado do Mato Grosso, onde o Gol Uno Nove Zero Sete acabara de se espatifar na floresta.

Apesar da angústia que sofreu entre o instante da colisão e o pouso em Cachimbo, o desastre do voo 1907 revelou-se um bom negócio para Joe Sharkey, que, da noite para o dia, tornou-se uma pessoa conhecida nos Estados Unidos, frequentando inclusive talk shows de grande audiência.

Ao contrário de seus seis companheiros de voo (os dois pilotos, os dois executivos da ExcelAire e os dois da Embraer), que, talvez em respeito aos 154 mortos da outra aeronave, se mantiveram reservados, Sharkey tirou conclusões apressadas sobre o desastre, inclusive enaltecendo o profissionalismo de Joe Lepore e Jan Paladino.

Numa matéria com chamada na primeira página do New York Times, intitulada “Colidindo com a morte a 37 mil pés e sobrevivendo”, Sharkey, entre outras coisas, escreveu: “Eles [Lepore e Paladino] pareciam soldados de infantaria trabalhando juntos numa enrascada, tal como haviam sido treinados.”

Após uma passagem por Cuiabá, onde foram interrogados “por um enérgico comandante da polícia”(segundo Joe Sharkey), os sete ocupantes do Legacy foram transferidos para o Rio.

Sharkey viajou logo para Nova York. Lepore e Paladino foram impedidos de sair do Brasil a pedido do Ministério Público. Ficaram hospedados, com suas mulheres, que vieram dos Estados Unidos para encontrá-los, em um hotel da avenida Atlântica, na praia de Copacabana, no Rio. Após seus depoimentos terem sido colhidos na polícia, na Justiça e no inquérito aeronáutico, Lepore e Paladino foram liberados para regressar aos Estados Unidos, coisa que fizeram no mesmo dia.

Na época em que Lepore e Paladino estavam no Rio, o agora requisitado Sharkey, numa entrevista ao programa Today Show, da rede de televisão americana NBC, transmitida em 5 de outubro, disse que os pilotos do Legacy corriam riscos (não disse de que tipo) no Brasil.

Enquanto Sharkey se pavoneava nos Estados Unidos, equipes do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes, oCenipa, acompanhadas de representantes da Embraer, da ExcelAire, da Honeywell (fabricante das aviônicas do Legacy), do Comitê Nacional de Segurança no Transporte, o NTSB, e da Administração Federal de Aviação, a FAA, ambos americanos, inspecionavam o equipamento do N600XL. Não precisaram de muito tempo para verificar o perfeito funcionamento do transponder e do sistema anticolisão TCAS. Os dispositivos não haviam falhado, e sim sido desligados durante o voo São José dos Campos–Manaus.

A leitura do conteúdo das duas caixas-pretas do X-Ray Lima foi feita por uma empresa especializada do Canadá. Foram então reproduzidos todos os diálogos travados no cockpit, assim como os procedimentos de pilotagem adotados por Lepore e Paladino. Com isso, tudo que se passou a bordo tornou-se um livro aberto.

Se Lepore e Paladino tiveram grande parcela de culpa no desastre do Gol 1907, a responsabilidade dos controladores de voo brasileiros não foi menor. Em seu laudo, um dos apêndices do relatório do Cenipa, o NTSB americano salientou, adequadamente, que Lepore e Paladino tentaram, sem sucesso, entrar em contato com o Cindacta 1 por pelo menos quinze vezes na meia hora que antecedeu à colisão.

Os operadores do Centro de Controle Aéreo de Brasília simplesmente não selecionaram em seus equipamentos as frequências 123,3 e 133,05 mega-hertz, previstas nas cartas aeronáuticas para aquele setor e usadas pelos pilotos do Legacy. Se a seleção tivesse sido feita no console, conforme ditavam as normas, o nível errado de voo e o desligamento do transponder teriam sido detectados e a colisão não ocorreria.

Entre os erros graves cometidos pelo Cindacta 1, um dos principais foi o de não ter chamado o Legacy assim que os sinais do transponder desapareceram das telas de radar. Isso ocorreu às 19h02 Zulu, ou seja, 54 minutos antes do choque com o Boeing da Gol.

Outra causa contribuinte do acidente foi a instrução dada, pela torre de São José dos Campos, para que o Legacy seguisse até o Aeroporto Internacional de Manaus no nível de voo 370, o que significava voar a maior parte do percurso na contramão. Embora se deva supor que nenhum piloto, em pleno juízo, vá considerar como última palavra uma autorização de nível de cruzeiro para uma distância (2,7 mil quilômetros) e um tempo de voo (três horas e 34 minutos) tão grandes, essa permissão descuidada e errada foi usada na defesa de Lepore e Paladino.

O inglês deficiente dos controladores de voo, aliado à apatia dos pilotos americanos em lidar com a fraseologia muitas vezes incompreensível dos operadores brasileiros, fez com que ambos os lados procurassem se comunicar o mínimo possível. Inúmeras oportunidades para a correção do nível de voo e para o restabelecimento das emissões do transponder foram perdidas por causa desse descaso.

Para Lepore e Paladino, faltou airmanship. Para os controladores, entre diversas outras coisas, um melhor treinamento em inglês. Só como exemplo, a última avaliação dos operadores de São José dos Campos nesse quesito havia sido feita em 2003. Nela, cinco dos profissionais obtiveram resultado “não satisfatório”. Mas nenhum deles foi afastado do serviço. Continuaram se “comunicando” com pilotos estrangeiros. O mesmo aconteceu com o pessoal do Cindacta 1. Segundo a própria Aeronáutica, Jomarcelo Fernandes dos Santos, o sargento que assumiu primeiramente o Legacy no console, tem conhecimento limitado da língua inglesa.

Entre as causas do acidente, há que se considerar também a liberação prematura, por parte da Embraer, da aeronave para traslado, tendo em vista que Joe Lepore e Jan Paladino tinham poucas horas de voo noequipamento Legacy. O mais prudente era que ambos fossem acompanhados, entre São José dos Campos e Fort Lauderdale (ou, no mínimo, entre São José e Manaus), por um piloto da própria Embraer.

Não foi preciso muito tempo, nem muito estudo, para se apurarem as causas do desastre: imperícia e negligência dos pilotos do jatinho, imperícia e negligência dos controladores de voo e afobação do fabricante (Embraer) e do operador (ExcelAire) na hora de entregar e de receber o avião. Esses ingredientes combinados foram responsáveis pela morte das 154 pessoas que viajavam no Boeing.

Gostaria de encerrar a narrativa deste episódio mostrando o desfecho, na Justiça, dos processos, cíveis e criminais, relativos às personagens e às instituições envolvidas no desastre. Só que as idas e vindas do sistema judiciário brasileiro, com seus inumeráveis recursos e instâncias, tornam impossível relatar o que aconteceu em definitivo, seja com os pilotos do Legacy, seja com os controladores de voo, com a ExcelAire, com a Embraer, com a Gol e com a Aeronáutica.

Em maio passado, por exemplo, os pilotos americanos foram condenados a uma pena de quatro anos e quatro meses de prisão, em regime semiaberto. O magistrado, porém, substituiu a pena pela prestação de serviços comunitários em órgãos brasileiros nos Estados Unidos e pela proibição do exercício da profissão. O controlador Jomarcelo dos Santos foi absolvido de todas as acusações pelo juiz Murilo Mendes, sob a alegação de que, “pelas notórias deficiências” da sua formação, “só se pode agradecer por ele não ter errado com muito mais frequência”. O controlador Lucivando Tibúrcio de Alencar foi condenado a três anos e quatro meses de prisão, por ter programado equivocadamente as frequências de comunicação do centro de controle,o que impossibilitou contato com o Legacy. Ainda há recurso em segunda instância em todos os casos, o que significa que o desfecho do processo está distante.

domingo, 26 de junho de 2011

A ilegitimidade constitucional da desaposentação


Desaposentação[1]. Recentemente, esse excelente portal veiculou a notícia intitulada: “Desaposentação pode aumentar benefício em 100%”[2]. Seu conteúdo, baseado em relator de renomados advogados, apontou um instituto, por meio do qual os aposentados conseguiriam majorar os valores recebidos do INSS. Entrementes, as linhas abaixo redigidas têm a função de clarividenciar a ilegitimidade constitucional da desaposentação, bem como desconstruir seus principais alicerces.
A origem do instituto da desaposentação está baseada em dois principais argumentos: a) o benefício previdenciário, no caso a aposentadoria, poder ser renunciado pelo beneficiário a seu bel-prazer; b) a contribuição para um fundo/sistema deve sempre gerar uma contraprestação.
Inicialmente, desconstrói-se a ideia de a desaposentação configurar renúncia de um direito, visto que renunciar um ato administrativo consiste no beneficiário não mais desejar a continuidade dos seus efeitos que lhe tragam vantagens, desonerando, por conseguinte, o devedor. Diversamente, a pretensão aqui é uma “revisão indireta”: cancela a aposentadoria, soma seu tempo com aquele “recolhido” posteriormente, gerando uma nova oneração imediata aos cofres previdenciários.
Consigne-se desde a edição da Lei 8.213/1991 (artigo 18, § 2°[3]), é vedada a utilização das contribuições vertidas por trabalhadores em gozo de aposentadoria para a obtenção de uma nova ou elevação da já auferida. Quais são os suportes constitucionais dessa regra?
1. Do princípio da solidariedade.
Na visão da seguridade social, o princípio da solidariedade (artigos 194 e 195 da CRFB) constitui um pacto entre gerações, segundo o qual as contribuições recolhidas destinam-se ao financiamento do sistema da seguridade social, e não para o financiamento exclusivo do benefício possivelmente gozado pelo sujeito passivo da exação tributária. Por conseguinte, o sistema previdenciário não possui natureza jurídico-contratual, espelhada em normas de direito privado, tampouco o valor pago pelo contribuinte – a despeito de ser, nessa análise, já aposentado – representa prestação sinalagmática de mão e contramão de curso forçado, mas tributo predestinado ao custeio da atuação do Estado na área da previdência social, que é terreno de transcendentes interesses públicos ou coletivos[4].
2. Dos princípios da seletividade e distributividade
O princípio da seletividade apregoa que os benefícios só serão fruídos por quem deles realmente necessite, devendo o necessitado estar dentro dos critérios erigidos na legislação. Se por um lado a previdência social arrecada valores para distribuí-los, essa distribuição, por outro lado, não deve ser desordenada. A renda deve ser auferida, em um primeiro plano, pelos mais necessitados. Nessa ótica, o princípio da distributividade é um desdobramento do princípio da igualdade material.
Partindo dessas definições, é vigoroso sustentar a lidimidade da opção legislativa pelo não acolhimento da desaposentação, haja vista aquele que já se aposentou e continuou desenvolvendo seu mister (a) já se encontra amparado pela previdência social, pois busca tão somente um plus para sua renda, e (b) tem, sob um ponto de vista comparativo aos “apenas trabalhadores” ou “apenas aposentados”, privilegiada condição socioeconômica, porquanto durante algum período percebia, simultaneamente, rendas da sua atividade laborativa e da inatividade previdenciária.
3. Do princípio da legalidade
No campo do direito administrativo, não há enunciado da legalidade redigido de forma específica. Então, por que se traduz desse princípio a ideia, unanimemente aceita, de que a Administração, no exercício das suas funções, só age em conformidade com a lei, diferentemente do particular?
O ente administrativo não possui vontade própria, de forma que sua atuação é voltada à concretização da vontade geral, cujos anseios da sociedade foram reunidos pelos representantes do povo em determinada prescrição legal, isto é, sua atividade é executar a lei (atuação secundum legem). Diante do exposto, se inexistir lei a autorizar determinado ato, não há possibilidade de ação administrativa, em virtude de não ser do desejo dos cidadãos.
Desse modo, a efetivação de direitos previdenciários reclama manifestação da Administração Pública, sendo assim, a pretensão intitulada desaposentação navegar em águas do direito público, cuja irradiação do princípio da legalidade – inexistência de lei = impossibilidade de concessão de direito pelo Poder Executivo – segue a trilha acima exposta.
4. Do princípio da isonomia
Basicamente, são 03 (três) elementos e 01 (um) pressuposto que autorizam à desigualação. Eis os elementos: a) o traço diferencial a ser adotado deve residir na pessoa, coisa ou situação a ser discriminada, e não em algum fator ou elemento alheio a elas; b) deve haver correlação lógica entre o fator erigido como critério discriminatório e seu consequente tratamento desigual, de forma que a vantagem ou desvantagem gerada esteja alicerçada em justificativa e adequação racionais, sendo vedada a discriminação infundada ou fortuita; c) o tratamento diferencial não deve ir de encontro à Carta Magna, vértice da pirâmide do ordenamento jurídico pátrio. “É dizer: as vantagens calcadas em alguma peculiaridade distintiva hão de ser conferidas prestigiando situações contadas positivamente, ou quando, menos, compatíveis com os interesses acolhidos no sistema constitucional” [5][6][7]. O pressuposto, nos dizeres de Celso Antônio Bandeira de Mello, concerne na impossibilidade de tratamento desigual, quando ele e o fator de desigualação advierem de “circunstâncias ocasionais que proponham fortuitas, acidentais, cerebrinas ou sutis distinções entre categorias de pessoas (...)”[8].
Estabelecidas as premissas teóricas, trazem-se exemplos na intenção de reforçá-las no mundo empírico.
Exemplo 01: os sujeitos “X” e “Y” aposentam-se no mesmo dia em 2003, com idêntico período básico de cálculo e salários-de-contribuição. No ano de 2010, “X” solicita o cancelamento do seu benefício, e concessão de um novo, apesar de, como “Y”, ter cessado de contribuir para o sistema previdenciário após sua aposentação. Verifica-se de forma clarividente o aumento dos valores a serem recebidos, tendo em vista ter avançado na idade, o que altera, como se verá, os componentes do fator previdenciário.
Além da burla ao fator previdenciário, não se obedeceu ao primeiro elemento, em vista de o “tempo”, per se, não servir como critério diferencial, em decorrência de ser elemento absolutamente neutro, em nada peculiarizando as pessoas. Na verdade, quando se reporta a essa referência cronológica irrefragável (tempo) como fator de desequiparação, levam-se em conta os fatos nela ocorridos, e não simplesmente seu transcurso.
Exemplo 02: o sujeito “A” tem um irmão gêmeo, o sujeito “B”. Ambos possuem idêntica situação laboral (iniciaram a trabalhar perante o mesmo empregador no mesmo dia, os empregos são idênticos e recebem o mesmo salário). Acontece que o sujeito “A” aposenta-se proporcionalmente em 2003, mantendo, entretanto, o mesmo vínculo laboral, e o sujeito “B” nada requerer ao INSS. No mesmo dia e mês do ano de 2010, ambos decidem parar de trabalhar. O sujeito “B” aposenta-se, e o sujeito “A” pretende cancelar sua aposentadoria, com vistas à concessão de outro benefício, computando-se os salários-de-contribuição vertidos antes e após o deferimento daquela aposentadoria em 2003.
Nota-se o ardil da situação? “A”, além do seu normal salário, recebia benefício previdenciário, enquanto, “B” não proporcionou esse débito para a previdência social. A vantagem auferida por “A” decorreu de um ato engenhoso.
Logo, ao contrário do que poderia se pensar, o aproveitamento das contribuições recolhidas por aposentados para aumentar, futuramente, o valor da sua aposentadoria colide frontalmente com o preceito constitucional da isonomia, uma vez o fator tempo, em si, não poder ser elemento diferenciador de tratamento jurídico, tampouco um segurado pode, mediante astúcia, ter vantagem sobre o outro, apesar de possuírem situações jurídicas idênticas.
5. Do equilíbrio financeiro e atuarial
O equilíbrio financeiro consiste na equivalência entre receitas e despesas. È atendido pelas fontes de receita, estabelecidas para cobrir os gastos, e ganha forma com o orçamento da seguridade social (artigo 165, § 5°, III, da CRFB).
Já a harmonia atuarial é, sinteticamente, a manutenção da saúde financeira do sistema, levando-se em conta o que será arrecadado e as presentes e futuras despesas. Um dos responsáveis pelo êxito desse cálculo estatístico é, exatamente, o fator previdenciário, cuja fórmula possui duas partes: o fator atuarial (do interesse desse escrito) e o chamando bônus de permanência em atividade, que, em suma, premia quem contribui à previdência social por mais tempo.
Da análise do fator atuarial, chega-se a uma conclusão inarredável: o cálculo dos valores a serem recebidos da aposentadoria parte da premissa de o segurado não ter se aposentado antes, ou seja, é um ato voltado para o passado, no que toca às contribuições vertidas, e para o futuro, quanto ao que será desembolsado pelos cofres públicos no pagamento do benefício concedido. Pelo visto acima, nossa legislação e o sistema de cálculo das aposentadorias não previram a desaposentação, em virtude de que não serão levados em conta os valores recebidos pelo aposentado por meio do seu benefício originário.
Outro ponto merecedor de comentário é a intenção de se maquiar um dos componentes do fator previdenciário, como visto, no primeiro exemplo acima citado: basta o segurado avançar na idade que sua renda mensal eleva-se, porque a idade no momento da concessão da aposentaria é fator levado em conta na hora de se calcular a renda mensal inicial (RMI).
Nosso sistema previdenciário baseia-se na causalidade custeio/benefício, sendo certo que a previsibilidade e a sustentabilidade orçamentárias do binômio receita/despesa têm por regra fundamental o fato de que a utilização das contribuições e do tempo de serviço para fins de aposentadoria ocorrerá, como já ressaltado, uma única vez.
Diferentemente, havendo percepção de proventos por um período devido ao recolhimento das contribuições (a, b, c, d ... z), e nova concessão de um novo benefício a partir das mesmas contribuições (a, b, c, d ... z) somadas a outras recolhidas mais recentemente (1, 2, 3 ...99), os pagamentos já efetuados reputar-se-ão indevidos, pois isso implica reclassificação atuarial do requerente perante a universalidade dos segurados, haja vista, na desaposentação, uma mesma contribuição servir para duas aposentadorias concedidas em sequência.
De mais a mais, a renda do benefício advinda da aposentadoria precoce pode ser aplicada para pagar, de forma indireta, a própria contribuição previdenciária (numa espécie de regime de compensação, o valor recebido em decorrência da aposentadoria supre o desembolsado para efetuar o pagamento das contribuições), o que deturparia, desfiguraria e viciaria o financiamento da seguridade social (artigo 195 da CRFB), tendo em vista um dos responsáveis pelo custeio (o trabalhador, nos termos do artigo 195, II, da CRFB) repassar o ônus para o orçamento público.
6. Da segurança jurídica, da idade avançada e do ato jurídico perfeito
A admissão da desaposentação no sistema previdenciário brasileiro, a par da flagrante mácula ao equilíbrio financeiro e atuarial, cria situação de instabilidade na relação jurídica de prestação previdenciária, ao retirar-lhe o caráter da definitividade, haja vista a possibilidade de o beneficiário requerer a desaposentação infinitamente, toda vez que contribuir após a jubilação. E mais. Ainda que não o faça, poderia requerer a desaposentação exclusivamente para burlar a regra do fator previdenciário, como no exemplo anteriormente descrito (aumento da idade).
Outra consequência a ser gerada é a obliteração da própria noção da idade avançada como contingência a que se destina o benefício de aposentadoria (artigo 201, I, da CRFB).
A desaposentação fomenta a aposentação prematura, independentemente da própria capacidade de continuidade no trabalho. Burla-se, dessa forma, não só o propósito constitucional do benefício de aposentadoria, mas, simultaneamente, a regra de distribuição dos encargos contributivos, diante da opção do segurado em se afastar do trabalho antes da idade estatisticamente relevante, pois o exercício da prerrogativa de aposentadoria em idade pouco avançada e em plena atividade laborativa homizia, em acintosa simulação, genuína pretensão a uma revisão posterior do valor da renda mensal.
Por fim, lembre-se que, requerido e iniciado o gozo da prestação previdenciária, o direito subjetivo à aposentadoria foi exercido, e arquitetou-se uma situação jurídica definitivamente constituída. Em outras palavras, há inquebrantável situação jurídica, cuja origem reuniu o exercício de um direito e a chancela do Poder Público.
Em todo o caso, quem dirá a última palavra sobre o tema será Supremo Tribunal Federal. O julgamento do RE 381.367/RS já teve início. O Min. Marco Aurélio votou pela possibilidade da desaposentação. O julgamento encontra-se, até o presente momento, suspenso, devido a um pedido de vistas do Min. Dias Toffoli.
Fica, assim, o Pretório Excelso com a incumbência de perscrutar minudentemente o direito aplicável à espécie, na esperança de desaprovar espertezas que malferem nossa Carta Federal, e põem em risco o arcabouço legal e principiológico do regime geral de previdência social.


[1] O teor desse escrito está baseado na obra CRUZ, Henrique Jorge. Desaposentação. In: PAVIONE, Lucas dos Santos; AMORIM, Luiz Antônio M. Temas Aprofundados: Advocacia Geral da União. Salvador: Podivm, 2011. No prelo.
[3] Art. 18. § 2°: O aposentado pelo Regime Geral de Previdência Social–RGPS que permanecer em atividade sujeita a este Regime, ou a ele retornar, não fará jus a prestação alguma da Previdência Social em decorrência do exercício dessa atividade, exceto ao salário-família e à reabilitação profissional, quando empregado.
[4] No voto-vencedor da ADI 3.105, o Min. Cezar Peluso registrou a regra constitucional do artigo 195 – segundo a qual a seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta – “bem poderia chamar-se princípio estrutural da solidariedade”.
[5] MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Conteúdo jurídico do Princípio da Igualdade. 3 ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 42.
[6] BUENO, Pimenta apud MELLO, Celso Antônio Bandeira de. op. cit. p. 42: “qualquer especialidade ou prerrogativa que não for fundada só e unicamente em um razão muito valiosa do bem público, será uma injustiça e poderá ser uma tirania.”
[7] “(...) não basta a exigência de pressupostos fáticos diversos para que a lei distinga situações sem ofensa à isonomia. Também não é suficiente o poder-se arguir fundamento racional, pois não é qualquer fundamento lógico que autoriza desequiparar, mas tão-só aquele que se orienta na linha de interesses prestigiados na ordenação jurídica máxima. Fora daí ocorrerá incompatibilidade com o preceito igualitário.” (ibidem, p. 43)
[8] Ibidem, p. 45.

Henrique Jorge Dantas da Cruz é procurador federal.

Revista Consultor Jurídico, em 26 de julho de 2011

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Revista Mente Cérebro (Scientific American) – 221 – junho de 2011.

Otelo e a doença da suspeita
Há mais de 400 anos o personagem – marcado pelo ego frágil, controle emocional falho e visão distorcida da realidade – causa fascínio, a ponto de ter motivado a criação de um conceito psiquiátrico: o ciúme patológico
por Sebastian Dieguez

Os textos de William Shakespeare são caracterizados por descrições minuciosas das paixões humanas e da loucura que muitas vezes as acompanha. O dramaturgo inglês apreciava personagens extremados, representações de violência e cenas de morte. A insanidade desenvolvida por Otelo marcou a subjetividade ocidental, por sua precisão e universalidade. É por esse motivo que análises do texto continuam a surgir e a se contradizer reciprocamente e as representações da peça nunca cessaram, desde sua primeira montagem, em 1604. E muitos estudos e artigos privilegiam os aspectos psíquicos do protagonista. Aparentemente, Shakespeare estava bem informado sobre a então emergente ciência do alienismo, em uma época na qual imperavam as superstições e conhecimentos sobre demonologia. Isso o levou a desenvolver em sua obra uma abordagem moderna da loucura, entendida essencialmente como a incapacidade de perceber e interpretar as próprias emoções (ou paixões). Por isso não surpreende que psiquiatras tenham utilizado um de seus personagens mais famosos para designar um distúrbio comportamental: a síndrome de Otelo.
A trama é simples. Um prestigiado general de pele morena (Otelo, o mouro) casa-se em segredo com a bela Desdêmona, filha de um nobre veneziano. Iago, amigo e subordinado do protagonista – e um dos mais famosos “malvados” da história do teatro –, faz de tudo para arruinar esse casamento e prejudicar seu superior hierárquico. Para atingir esse objetivo, instiga o ciúme, fazendo Otelo acreditar que a mulher o trai com Cássio, um jovem tenente. O plano funciona tão bem que Otelo acaba matando a mulher e suicidando-se em seguida. Para quem assiste às malvadezas de Iago, suas mentiras e audácia são de tirar o fôlego. Mas o conjunto dos personagens é constantemente traído por uma retórica excessiva: ele finge expor coisas que preferia esconder, mas que revela por se sentir obrigado pela amizade e fidelidade que o ligam a seus interlocutores. O mecanismo constitui a parte essencial do desenvolvimento do texto, até o desfecho trágico.
DE TRÊS TIPOS
Na verdade, com exceção das mentiras mais ou menos sutis de Iago, quais “provas” levarão Otelo a assassinar a esposa? Elas são risíveis: um lenço perdido e misteriosamente encontrado nos aposentos de Cássio, um mal-entendido durante uma discussão na qual o tenente fala de sua amante Bianca (que Otelo toma erradamente por Desdêmona), e as mãos úmidas da mulher, para ele um indício revelador de sua infidelidade (quando na verdade ela está simplesmente ansiosa). O cúmulo da ironia é que Otelo chega a considerar seu próprio ciúme uma prova da infidelidade da esposa: “Uma natureza não se deixaria invadir dessa forma pela sombra da paixão (ou emoção) sem um bom motivo. (...) Não são meras palavras que me tanto agitam”. E mesmo o assassinato de Desdêmona constituirá uma prova complementar da culpabilidade dela: “Eu sofreria a danação das profundezas do inferno, se não tivesse chegado a esses extremos sem motivos justos”.
Embalado pela eficácia de suas maquinações, Iago leva a simulação a ponto de colocar Otelo contra seu próprio plano, na famosa fala: “Oh! Cuidado com o ciúme, meu senhor! Ele é um monstro de olhos verdes, que produz o alimento do qual se nutre! Esse chifrudo vive na alegre embriaguez de quem, tendo certeza de sua adversidade, não ama aquela que o trai; mas oh! que malditos minutos ele conta, esse que ama, mas duvida, mas ama perdidamente!”. A ingenuidade do general, não somente por confiar cegamente em Iago, mas, sobretudo, por apostar em sua própria capacidade de discernimento, aparece em toda sua ironia quando ele afirma, convicto, que não é homem de sucumbir com facilidade ao ciúme. E Iago não precisa mais do que concluir hipocritamente: “Eu devo rogar que não deis a minhas palavras um desfecho mais grave, um alcance mais amplo do que o de mera suspeita”.
A peça é um estudo magistral do ciúme patológico, um tema inúmeras vezes dissecado por pesquisas clínicas posteriores. Hoje, sabe-se, por exemplo, que essa emoção extremamente perturbadora vem acompanhada de perturbações psicológicas. Os homens são particularmente sensíveis à simples representação mental de uma infidelidade sexual e esses pensamentos costumam ser suficientes para aumentar a pressão sanguínea e fazer soar o alarme do sistema nervoso autônomo. Iago abusará dessa fragilidade para levar seu general à loucura, por exemplo, quando sugere a ele, com ar de quem não quer nada: “Agradar-lhe-ia assistir, estupefato, a um grosseiro flagrante e vê-la ser assediada?”.
Entretanto, ainda é nebuloso o que exatamente separa a patologia da normalidade. Para Sigmund Freud, o ciúme serve para convencer o parceiro de que é digno do amor a ele dedicado. Ou seja: está vinculado ao próprio narcisismo. Em seu ensaio Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade (1922), o criador da psicanálise estabeleceu três estágios: o normal ou concorrencial (no qual está presente uma dose de homossexualidade latente); o projetado (o próprio ciumento tem tendência a ser infiel e vê essa tendência no parceiro); e, por fim, o delirante (de teor paranoico).
À PROCURA DE PROVAS
Inúmeras expressões foram utilizadas para designar as formas patológicas de ciúme – mórbido, psicótico, neurótico, sexual, erótico, paranoia conjugal, delírio de infidelidade etc. O termo “síndrome de Otelo” foi sugerido em 1955 pelos neuropsiquiatras John Todd e Kenneth Dewhurst para designar um complexo de pensamentos e emoções irracionais, muitas vezes associado a comportamentos exagerados e violentos, derivados da exacerbada preocupação com a suposta infidelidade do parceiro, baseada em provas inconsistentes e por vezes imaginárias. A manifestação mórbida se apresenta sob a forma de interpretações delirantes de acontecimentos ordinários, de uma resistência frente aos elementos que contradizem o delírio e de acusações injustas contra o parceiro, que podem acarretar comportamentos perigosos. Como sugere Emília, criada de Desdêmona e mulher de Iago, o ciúme mórbido é uma entidade que ri da realidade. À mulher de Otelo, que garante nunca ter dado qualquer motivo para que o marido desconfiasse dela, a moça responde: “Mas aos corações ciumentos essa resposta não basta; nem sempre sentem ciúme por causa de um motivo. O ciúme é um monstro gerado por si mesmo”.
O distúrbio é registrado no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM na sigla em inglês), guia oficial de perturbações mentais, atualmente em sua quarta versão. Classificada na parte dedicada à esquizofrenia e outras perturbações psicóticas, a síndrome é denominada perturbação delirante de tipo ciumento. O diagnóstico, entretanto, não dá conta da diversidade de distúrbios: delírios de perseguição, obsessões, comportamento extremado e até mesmo psicopatia. Na maior parte das vezes, esses indivíduos apresentam grande imaturidade em suas relações e podem ter comportamentos agressivos, em geral associados ao consumo de álcool ou drogas ilícitas. Seu desejo de controlar a fidelidade do parceiro costuma ser extremado, levando-o a segui-lo, a se esconder para pegá-lo em flagrante, a remexer metodicamente seus pertences, a fazer inspeções corporais etc. Se o problema perdura, com frequência o fim é trágico, chegando a desdobramentos como assassinato do cônjuge, de filhos do casal ou de um dos parceiros e suicídio. Com frequência, a pessoa é violentamente refratária a qualquer tipo de argumentação e ignora as provas de inocência que venham a ser apresentadas, mesmo que irrefutáveis.
Essa forma de negação é explícita em Otelo: “Meus pensamentos de sangue, em seu caminhar violento, jamais olharão para trás”. Aliás, só alguns instantes antes de matar Desdêmona é que Otelo revela o que condena, nela, e tenta arrancar uma confissão: “Confessa francamente teu crime; pois por mais que negues cada ponto, mesmo sob juramento, jamais poderás te afastar nem sufocar esse horrível pensamento que provocam em mim estes soluços”.
Talvez o sinal mais característico da síndrome de Otelo seja a procura obsessiva de “provas de infidelidade”. A menor observação, um mínimo gesto, ou um acontecimento qualquer são interpretados como demonstração óbvia de que o parceiro tem uma ligação extraconjugal.
Praticamente todos os fatores que predispõem ao ciúme mórbido, posto em evidência pelos pesquisadores modernos, estão em Otelo. Na maioria desses casos identifica-se, por exemplo, uma diferença marcante entre integrantes do casal, que pode ser relativa ao estrato social, à renda, à idade, aos dotes físicos, às origens ou à inteligência. Iago não deixa de lembrar Otelo das disparidades que o distinguem de Desdêmona: “Ter recusado tantos pretendentes de boa posição e que tinham com ela todas essas afinidades de pátria, de raça e de sangue, condições de que todos os seres são naturalmente tão ávidos! Hum! Isso revela um gosto bastante corrompido, uma horrenda depravação, pensamentos desnaturados; tudo o que eu temo é que como seu gosto se refere a inclinações pouco normais, ela termine por compará-lo às pessoas de seu próprio país de origem, e talvez termine por se arrepender do casamento”.
VÍTIMA OU ALGOZ?
Trata-se aqui, de maneira muito crua, das origens de Otelo, e mais precisamente da cor de sua pele (desse ponto de vista, a leitura da peça não consegue substituir a vivência da representação sobre um palco, onde o isolamento e a alteridade do mouro são constantemente visíveis). O processo que transforma a mera constatação dessas diferenças em ciúme mórbido é reconhecido pelo próprio protagonista: “Talvez por eu ser negro e não ter em minhas conversas as formas flexíveis dos intrigantes, ou talvez por eu já me inclinar sobre o vale dos anos; sim, talvez por tão pouco eu a tenha perdido! Estou ultrajado! E o consolo que me resta é desprezá-la”. Iago nunca precisou forçar a natureza de Otelo – bastou que tocasse sua frágil autoestima. A vergonha de si mesmo leva ao desprezo do outro e, em seguida, à suspeita de infidelidade. As diferenças em um casal, sejam elas reais ou imaginárias, remetem, portanto, a uma falha narcísica no ciumento (em geral associada à imaturidade afetiva). O ciúme possibilita então que se neutralizem esses sentimentos negativos por si mesmo e seja preservada uma imagem conveniente de si, muitas vezes exagerada, o que confere uma postura de moralidade e retidão ao ciumento, convencido de que está empenhado em defender a própria honra. Como diz o escritor francês do século 17 François La Rochefoucauld, “há no ciúme mais amor-próprio que amor”.
Alguns psicólogos observam que a impotência sexual é um importante fator desencadeador da síndrome de Otelo. Essa situação, negada ou minimizada, seria psiquicamente convertida na suposta hipersexualidade do parceiro. Ou o marido impotente apenas se sente culpado e se convence de que a parceira procurará satisfação em outro lugar.
Iago coloca em dúvida a virilidade do general. A impotência do mouro não é mencionada explicitamente, mas Shakespeare parece se referir ela por meio de artifícios. Primeiro, sua noite de núpcias é subitamente anulada pela notícia de um iminente ataque da marinha turca contra Chipre. Otelo e seu séquito vão imediatamente à ilha, mas quando chegam ao local ficam sabendo que o ataque havia sido cancelado por uma tempestade em alto-mar. Num segundo momento, que pode expressar uma castração simbólica, o general é privado da única coisa que sabe fazer: a guerra. Essas duas metáforas de impotência e de impossibilidade indicam a intenção de Shakespeare de comprometer a virilidade de seu herói.
Mais recentemente, os neurologistas recorreram à síndrome de Otelo para descrever casos de ciúme patológico decorrentes de perturbações cerebrais, incluindo Alzheimer, derrame, epilepsia, encefalite, tumor, doença de Huntington, uso abusivo de substâncias etc. No que diz respeito ao personagem, uma opinião mais específica parece delicado ou incongruente, ressalvando-se o fato de o próprio Iago informar ao espectador que o mouro sofre “de epilepsia”. Efetivamente, em duas ocasiões Otelo mergulha em uma crise de cólera. Evidentemente Iago não é neurologista, mas cabe perguntar qual seria o motivo que teria levado Shakespeare a considerar útil fazer casualmente essa menção, não fosse para expressar a ideia de que a loucura estaria enraizada em um distúrbio cerebral (uma teoria extremamente moderna, naquela época).
Por outro lado, se é o ciúme que torna Otelo rapidamente irreconhecível, a questão se refere mesmo ao diagnóstico. Se nos ativermos aos critérios do DSM-IV, diremos que Shakespeare conseguiu ir mais longe do que a maioria dos escritores e psiquiatras. Na primeira confrontação direta com Desdêmona, o personagem é incapaz de manter uma discussão racional que possibilitaria dirimir de imediato as dúvidas. Em vez disso, ele a acusa e insulta, sem dar qualquer explicação. Nesse momento, vemos a que ponto a realidade lhe escapa. O que ele lamenta não é tanto a infidelidade, mas sim o aniquilamento de uma imagem idealizada e fantasiada da mulher, construída para preservar o próprio ego. O simples questionamento dessa imagem é suficiente para destruir sua couraça psíquica – desnudar as fraquezas do ego.
Iago nunca precisou forçar a natureza de Otelo para enlouquecê-lo, bastou-lhe revirar o frágil ideal que o outro fazia de si mesmo e da esposa, e sobre o qual assentava todo seu universo (demonstrando assim que Otelo amava Desdêmona pela imagem que construiu dela). A partir de então, a mulher já não tem a mínima chance, pois não é dela que trata essa tragédia – mas sim da vaidade de Otelo.
Sebastian Dieguez
é neuropsicólogo, pesquisador do Laboratório de Neurociências Cognitivas do Instituto do Cérebro e Mente, da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça.

A FELICITA' GIUSTA SE IL BENESSERE DIVENTA DI TUTTI

La Dichiarazione d' indipendenza dei tredici Stati Uniti d' America del 4 luglio 1776 inizia con un' enfatica dichiarazione. Esistono verità "per se stesse evidenti": che tutti gli uomini sono creati uguali e che sono dal Creatore dotati di alcuni inalienabili diritti. Tra questi, oltre alla vita e alla libertà, c' è la ricerca della felicità ( pursuit of happiness ). La (ricerca della) felicitàè uno dei grandi temi che ha caratterizzato, nel suo insieme, il secolo XVIII, dal punto di vista morale e politico. La Dichiarazione d' indipendenza è figlia di quel tempo e, come vedremo, di quella terra. Il secolo successivo è stato molto più prudente. Anzi: la felicità come meta della vita individuale e collettiva è stata piuttosto associata all' infelicità, in una sorta di coincidentia oppositorum. Per gli individui, è fonte d' inquietudine e di aspirazioni mai stabilmente soddisfatte. Per le società, è fonte di forze distruttive, operanti su larga scala. Possiamo farci aiutare da un testo classico, che non cessa di stupire per la sua fecondità, Il Grande Inquisitore de I fratelli Karamazov di Dostoevskij. Si dice, di solito, che il dialogo dell' Inquisitore col Cristo silente tratta di libertà degli uomini e di dominio sugli uomini. In realtà, ancor prima è un discorso sulla felicità e sull' infelicità: l' infelicità che è generata dalla libertà e, viceversa, la felicità che può derivare dalla liberazione dalla libertà. Leggiamo. Non c' è nulla di più ammaliante per l' uomo che la libertà del proprio giudizio, ma non c' è nulla di più tormentoso. Onde verrà presto il momento in cui, tutti insieme, deporranno la loro libertà ai piedi di qualcuno che ne li libererà e questi saranno gli Inquisitori: eccoi veri liberatori dell' umanità, coloro che la libereranno dall' oppressione della libertà cioè da quella tensione tra il desiderio e la realizzazione, da quella irrequietezza e da quello spirito di rivolta che è il germe dell' infelicità umana. Un paradosso letterario, o una diagnosi antropologica e politica? Che la libertà sia un peso è quasi un luogo comune. Che questo peso, almeno nella letteratura reazionaria basata sull' idea della corruzione della natura umana, possa essere sopportato solo da uomini superiori e non dalla massa, anche. La massa è fatta da schiavi con la costituzione del ribelle, dice l' Inquisitore: in quanto ribelli, vogliono la felicità, ma in quanto schiavi non ne sono capaci e hanno bisogno del padrone. L' Inquisitore avrebbe certamente detto che il diritto "americano" di cercare la felicità era in realtà la condanna all' infelicità. Dovrà regnare la felicità, sì, ma la dovrete ricevere da noi, gli Inquisitori, che ve la amministreremo nella misura che vi è consona . Ma quale felicità? La felicità consiste nell' aver tolto dal cuore il tormento che deriva da quel dono che è la libertà. Non s intende qui la libertà come possibilità di scelta di convenienza; della libertà, per così dire economica, legata semplicemente a preferenze, la libertà del consumatore, per intenderci. Stiamo parlando di ben altra cosa, della libertà di realizzare se stessi, di scegliere che cosa si vuole che sia la nostra esistenza. È questa, non l' altra, la libertà che deve essere tolta all' essere umano per renderlo felice. Nonè forse questo il segreto di un certo tipo di dominio su vasta scala, su esseri umani standardizzati nei piccoli loro desideri, alimentati continuamente dalla "comunicazione", questa nuova scienza del governo che sempre di nuovo propone stili vita, modelli di massa che promuovono desideri mediocri, volgari e conformisti? Oggi, così si vive in società, attraverso il governo dei desideri, cioè degli animi: una forma di potere che sembra avere sostituito, con effetti anche più radicali, il controllo dei corpi. Che sia meglio una cosa o l' altra, è discutibile, poiché il controllo dei corpi almeno lascia la libertà interiore di desiderare, pur se impedisce di perseguire l' oggetto del desiderio. Questo è un modo per contrastare gli effetti distruttivi della (ricerca della) felicità, tramite il controllo omologante dei desideri, un controllo che può giungere fino a spegnerli, con ciò riducendo gli esseri umania bestie. "Il faut les embêter". L' altro modo è quello di ricondurli non di disumanizzarli, ma di "istituzionalizzarli", trasformando l' instabile "materiale psichico" soggettivo che alimenta la ricerca della felicità in qualcosa di obbiettivo, funzionale alla vita sociale. Sigmund Freud, nel celebre scritto del 1920 su Il disagio della civiltà parla di felicità, infelicità e istituzioni con riguardo alla psiche umana e dice: «Non vogliamo ammetterla <l' infelicità delle società odierne&, non riusciamo a comprendere perché le istituzioni che noi stessi abbiamo creato non debbano rappresentare una protezione e un beneficio per tutti. <...&. Di fatto l' uomo primordiale stava meglio, poiché ignorava qualsiasi restrizione pulsionale. In compenso la sua sicurezza di godere a lungo di tale felicità era molto esigua. L' uomo civile ha barattato una parte della sua possibilità di felicità per un po' di sicurezza». Con queste parole, si tocca il punto centrale: il rapporto tra felicità e sicurezza. La massima (ricerca individuale della) felicità comporta la massima insicurezza sociale: nessuno sarebbe sicuro di nessuno; i patti sarebbero impossibili perché tutti li violerebbero quando ostacolassero quella ricerca. Verrebbe meno la fiducia, che di ogni vita sociale è condicio sine qua non. Simmetricamente, la massima sicurezza coinciderebbe con l' assoluto divieto della (ricerca individuale) della felicità. Che dire allora? Che per vivere in società dobbiamo rinunciare alla ricerca della felicità, riducendoci a gregge sotto un pastore che provvede per noi o istituzionalizzandoci integralmente, "funzionalizzandoci" alla società? Non sia mai. Ogni società è un equilibrio tra sicurezza dei rapporti e desiderio di alterarli per accrescere la propria felicità. Come permettere la ricerca della felicità senza compromettere un livello minimo di sicurezza e fiducia tra gli esseri umani? La formula della Dichiarazione d' indipendenza americana, dalla quale abbiamo preso spunto per queste considerazioni, è l' espressione genuina del più ingenuo ottimismo del secolo dei "lumi". Poteva forse corrispondere a una possibilità effettiva in società come quella delle tredici colonie che non conoscevano confini.O meglio: società dove lo spazio non costituiva limite e condizione. Il viaggio a occidente per cercare fortuna era la prospettiva per una ricerca della felicità che poteva svolgersi senza conflitti (le popolazioni autoctone non facevano problema). Questo era il mito americano, così intimamente legato al miraggio della felicità. Ma negli "spazi pieni"? Lo spazio pieno è quello in cui ogni spostamento di uno comporta lo spostamento di altri. È, da secoli, la condizione europea. Ma gli spazi sono ormai saturi anche in America dove, oggi, le frontiere, non più allargabili, sono presidiate dalla forza pubblica. Che cosa si deve concludere, allora? Che la ricerca della felicità, qui e oggi, è impossibile? Che la società, coni suoi vincoli, ci soffoca inesorabilmente? Che la profezia del Grande Inquisitore o il "disagio della civiltà" ci condannano alla passività e all' immobilità? Sopra tutto, notiamo uno spostamento, anzi un rovesciamento di senso. La ricerca della felicità era, originariamente, la rivendicazione sulla bocca degli cioè degli oppressi. Basta leggere il preambolo della Dichiarazione d' indipendenza. Oggi, il senso s' è rovesciato. Sono i potenti, i "Prominenten", che la rivendicano come diritto, la praticano e l' esibiscono, spesso oscenamente, come stile di vita. Non sentiremo uno sfrattato, un disoccupato, un lavoratore schiacciato dai debiti, un migrante irregolare, un individuo strangolato dagli strozzini, un rom cacciato, una madre che vede il suo bambino morire nei primi mesi di vita, rivendicare il suo diritto alla "felicità". Grottesco! Sentiremo questo eterogeneo popolo degli esclusi e dei sofferenti chiedere, invece che felicità, giustizia. La loro "felicità" sta nel chiedere un poco di giustizia. Negli spazi pieni, la felicità nel senso della Dichiarazione citata all' inizio è diventata la pretesa dei forti, che fa torto ai deboli; la giustizia, non la felicità, è la richiesta dei deboli che contestanoi privilegi dei forti. Così, oggi, felicità è diventata parola dal senso rovesciato rispetto a quello originario, cioè è diventata parola d' oppressione, parola di classe, e come tale dovremmo trattarla. Con quest' ulteriore precisazione, che viene quasi da sé: la felicitàè un' aspirazione che riguardai singoli individui, la giustizia,è un' aspirazione che riguarda la società tutta intera. Come tale, è funzione non delle pulsioni individuali ma delle politiche collettive. Una conclusione certo inquietante. Sullo sfondo c' è lo stato-provvidenza, uno stato che ha tendenze totalitarie in vista di una qualche concezione della giustizia che deve valere per tutti. Così è che, nella ricerca dell' equilibrio tra libertà della ricerca individuale della felicità e giustizia sociale, in Europa entra quel vincolo esterno alla coscienza che è l' obbligo legale. Anche nella Dichiarazione dei diritti francese del 1789 si parla di felicità. Ma non è la felicità individuale; è "le bonheur de tous". Tra questi "tutti", la legge ha il compito di stabilire i limiti e i confini, onde la felicità dell' uno non diventi infelicità degli altri. Una dimensione oggettiva della felicità fa qui apparizione, come insieme dei diritti di libertà previsti, regolati e limitati dalla legge. In tutti gli "spazi pieni" nel senso anzidetto è così. La rivendicazione di un anacronistico diritto all' illimitata ricerca individuale della felicità, per quanto seducente agli occhi degli ingenui o dei troppo furbi, è fautrice di ingiustizie, tensioni e disfacimento sociale. Questo testo è una parte della Lezione magistrale dal titolo "Felicità. La possibilità del bene" che Gustavo Zagrebelsky terrà domenica a Modena nell' ambito del Festivalfilosofia - GUSTAVO ZAGREBELSKY

LA SOCIETÀ DELLA INCERTEZZA

La modernità è arrivata come una promessa, ben determinata a sfidare e conquistare l' incertezza, a condurre contro quel mostro policefalo una guerra totale di logoramento. I filosofi dell' epoca spiegavano l' improvvisa abbondanza di crudeli e terrificanti sorprese - prodotte dalle forze sprigionate da lunghissime guerre di religione, fuori controllo e tali da sfuggire alla presa e al freno di pesi e contrappesi - con il fatto che Dio si era ritirato dalla supervisione diretta e dalla gestione quotidiana della Sua creazione, oppure con il cattivo funzionamento della creazione in quanto tale, ossia coni capricciei ghiribizzi cui la Natura è soggetta finché, non venendo imbrigliata dall' ingegno umano, resta aliena e sorda rispetto ai bisogni e ai desideri degli uomini. Vi potevano essere differenze tra le spiegazioni preferite, tuttavia gradualmente emerse un ampio accordo relativo al fatto che l' attuale amministrazione degli affari mondani non reggeva alla prova e che il mondo aveva bisogno di essere urgentemente sottoposto a una nuova gestione (umana, questa volta) indirizzata a chiudere i conti una volta per tutte con i più terribili demoni dell' incertezza: la contingenza, la casualità, la mancanza di chiarezza, l' ambivalenza, l' indeterminazione e l' imprevedibilità. (...) Quando tale compito sarebbe stato portato a compimento, gli esseri umani non sarebbero più stati dipendenti dai "colpi di fortuna". La felicità umana non sarebbe più stata un dono del fato, ben gradito, ma non richiesto, bensì il regolare prodotto di una programmazione fondata sulla conoscenza scientifica e sulle sue applicazioni tecnologiche. In realtà la gestione umana non è stata in grado di corrispondere alle aspettative popolari, alimentate dalle assicurazioni generosamente concesse dai suoi dotti progettisti e dai suoi poeti di Corte. È vero che molti dispositivi ricevuti in eredità e accusati di saturare d' incertezza la ricerca umana erano stati smantellati e gettati via, ma il volume d' incertezza prodotto dai modelli che li avevano sostituiti non era inferiore al precedente. (...) Per i primi cento o duecento anni della guerra contro l' incertezza si è minimizzato il fatto che non si fosse registrata una convincente vittoria. I sospetti che l' incertezza potesse essere una compagna permanente e inseparabile dell' esistenza umana tendevanoa veniMODENA - Zygmunt Bauman, Carlo Galli e Michela Marzano, di cui anticipiamo i testi, sono ospiti alla decima edizione del Festivalfilosofia in programma a Modena, Carpi e Sassuolo da domani a domenica. Il tema di quest' anno è la fortuna. «L' avvenire, il domani, pare aver riacquistato la sua natura di incontrollabile contingenza, di luogo di esplicazione di grandi forze che, in gran parte, sfuggono al nostro controllo», ha detto Remo Bodei, presidente del comitato scientifico della manifestazione. L' inaugurazione - venerdì alle 15 a Modena in Piazza Granre negati come essenzialmente sbagliati, o quanto come non sufficientemente dimostrati, dunque prematuri: nonostante le crescenti prove in contrario, era ancora possibile pronosticare che, dopo aver corretto questo o quell' errore e dopo aver superato o aggirato questo o quel rimanente ostacolo, si sarebbe potuta conseguire la certezza. (...) Durante gli ultimi cinquant' anni, tuttavia, si è fatto largo un drastico cambiamento nella nostra visione del mondo, che ne condiziona adesso parti ancor più fondamentali rispetto alla concezione che avevano i nostri antenati riguardo al ruolo della contingenza negli itinerari congiunti della storia umana e della vita degli individui, e alle loro idee di come si poteva mitigarne l' impatto de - è affidata all' 83enne Bauman con la prima delle 50 lezioni magistrali di intellettuali italiani e stranieri in programma. Tra i relatori: Marc Augé, Gustavo Zagrebelsky, Massimo Cacciari, Umberto Galimberti, Enzo Bianchi, Tullio Gregory, Maurizio Ferraris, Roberto Esposito. Gli altri 150 appuntamenti riguarderanno la narrazione (con letture di Erri De Luca e Stefano Benni), il teatro (con Paolo Rossi e Alessandro Haber), il cinema (Enrico Ghezzi racconta Kieslowski), la musica, le iniziative per bambini. © RIPRODUZIONE RISERVATA grazie al progresso della conoscenza e della tecnologia. Nelle nuove narrazioni delle origini e dello sviluppo dell' universo, della formazione del nostro pianeta, delle origini e dell' evoluzione della vita sulla Terra, così come nelle descrizioni della struttura e del movimento delle unità elementari di materia, gli eventi casuali - cioè eventi essenzialmente imprevedibili, indeterminati o del tutto contingenti - sono stati promossi e innalzati dal grado di marginali "fenomeni di disturbo" a quello di attributi primari della realtà e sua principale spiegazione. La moderna idea di ingegneria sociale fondava la sua affidabilità sull' assunzione di ferree leggi che governavano la Natura e avrebbero reso l' esistenza umana ordinata e pienamente regolata, una volta spazzate via le contingenze responsabili delle turbolenze. Negli ultimi cinquant' anni, però, siè arrivatia mettere in questionee sempre più a dubitare dell' esistenza stessa di tali "ferree leggi" e della possibilità di concepire ininterrotte catene di causaeffetto. Oggi ci stiamo rendendo conto che contingenza, casualità, ambiguità e irregolarità sono caratteristiche inalienabili di tutto ciò che esiste, e pertanto sono irremovibili anche dalla vita sociale e individuale degli esseri umani. (...) Detto questo, si noti che nella nostra epoca liquido-moderna ci sono infinite ragioni, più che cinquant' anni fa, per sentirsi incerti e insicuri. Dico "sentirsi", perché il volume delle incertezze non è aumentato: lo hanno fatto invece volume e intensità delle nostre preoccupazioni e ansie, e ciò è accaduto perché le lacune tra i nostri mezzi per agire efficacemente e la grandiosità dei compiti che ci troviamo di fronte e siamo obbligati a gestire sono divenute più evidenti, più ovvie e in verità più minacciose e spaventose rispetto a quelle di cui hanno fatto esperienza i nostri padri e i nostri nonni. A farci sentire un' incertezza più orrenda e devastante che in passato sono la novità nella percezione della nostra impotenza e i nuovi sospetti che essa sia incurabile. (...) Man mano che il potere di agire in modo efficace gli è scivolato via dalle dita, gli Stati, indeboliti, sono stati costretti ad arrendersi alle pressioni dei poteri globali e ad "appaltare" alla cura e alla responsabilità degli individui un numero crescente di funzioni in precedenza da loro erogate. Come ha mostrato Ulrich Beck, oggi ci si aspetta che siano donne e uomini singolarmente a cercare e trovare risposte individuali a problemi creati socialmente, ad agire su di essi utilizzando le loro risorse individuali e ad assumersi la responsabilità delle loro scelte, nonché del successo o insuccesso delle loro azioni. In altri termini, oggi siamo tutti "individui per decreto", cui si ordina, presupponendo che ne siamo capaci, di progettare le nostre vite e di mobilitare tutto ciò che serve per perseguire e realizzare i nostri obiettivi di vita. Per la maggior parte di noi, tuttavia, questa apparente "acquisizione di capacità" è in tutto o quanto meno in parte una finzione. La maggior parte di noi non possiede le risorse necessarie per innalzarsi dalla condizione di "individui per decreto" al rango di "individui di fatto". Ci mancano la conoscenza necessaria e la potenza richiesta. La nostra ignoranza e la nostra impotenza nel trovare e attuare soluzioni individuali a problemi socialmente prodotti hanno come esito perdita di autostima, vergogna per essere inadeguati di fronte al compito e umiliazione. Tutto ciò concorre all' esperienza di un continuo e incurabile stato di incertezza, cioè l' incapacità di assumere il controllo della propria vita, venendo così condannati a una condizione non diversa da quella del plancton, battuto da onde di origine, ritmo, direzione e intensità sconosciuti. Traduzione di Daniele Francesconi - ZYGMUNT BAUMAN